Não, a Belém do título não é a Belém-cidade. É uma Belém-mulher, Maria de Belém Meneses, uma das mais ativas e fiéis amantes da cidade de Belém, as duas irmanadas desde o nome, que as funde e confunde, as duas, quase uma só Belém, no amor e cuidado da mulher a seu lugar, aos seus.
Mª de Belém sabe muito da Belém-cidade. Eu, que pouco sabia dos versos de Dulcinéa, não imaginava que Belém e Dulcinéa fossem amigas, desde que o pai de Belém, o poeta Bruno de Meneses, lançava-se à essência da poesia para logo boiar ao reino dos leitores com seus muitos versos de encantar. A amizade das duas vem dos idos do Bruno vivo quando ele entabulava diálogos poéticos com Dulcinéa. Desde ali, não importa a distância, por telefonemas e cartas, as duas amigas não se perdem de vista.
Entra também, nesse laço amistoso, a Lenora, a caçula de Bruno, pianista das ótimas. As irmãs formam dupla de peso no amor às artes e à memória artística da 'Gostosa Belém de outrora', para usar o título do gostoso livro de crônicas com que o poeta De Campos Ribeiro nos incita a ir de volta a uma Belém de um tempo não muito atrás, quando, aí sim, ponha gostosura de viver numa cidade acolhedora, um paraíso de Belém, pois até os ladrões que atazanavam a calmaria das noites eram (em comparação com os milhares de medonhos, cruéis ladrões de hoje que nos asfixiam e matam por todo canto), meliantes até bonzinhos. Só queriam mais surrupiar os galinheiros que todos podiam ter. Flagrados com a mão nas criações viçando nos quintais (Ai que saudade dos frondosos quintais de Belém!), os gatunos tremiam, metiam o pé na carreira e se escafediam sem deixar rastro no breu das madrugadas.
Mas preciso dizer que as irmãs Meneses adubam verdejante jardim de memória das artes no Pará. Seu plantio floresce em todas as estações. Belém ainda vigia o apuro de um dos biscuís da cidade, a capela de são Joãozinho na Cidade Velha! Belém semeia e colhe bonitezas. Sua ramada mais ensolarada são as cartas que troca com muita gente do mundo das artes. Depois que escrevi à procura de Dulcinéa, a Lenora telefonou para dizer da poeta vivinha da silva, saltitante e fagueira com mais de 90 anos. Reuniu sim e publicou seus poemas. Mª de Belém em visita à amiga no Rio trouxe exemplares, já em estudo por Lília Chaves, esta também poeta de bela e delicada poesia da melhor entre a que se faz em língua pátria.
Conversar com Belém, com Lenora, que viagem! Exemplo? Em conversa com Lenora veio à cena uma certa Geraldina Márquez, hoje radicada em S. Paulo. Tem 97 anos. Escreveu o romance 'Meu marido voltou'. Ficamos cuíras. Que mulher essa, que romance o seu? Quanto à Dulcinéa, a veloz Mª de Belém já lhe enviou recorte de meu escrito. Mas a nonagenária Dulcinéa batia pernas pela Índia. Voltou ao Rio e já telefonou a Mª de Belém para renovar carinho e dizer que não lera ainda a correspondência recebida. Já, já o faria. Desfazer malas dá um trabalho! Dulcinéa voltou da Índia, dormiu e acordou nem aí à história de fuso horário. Ah, sim, Fernando Jares, como vês, tu que me leste e correste a saber mais sobre a poeta, espera, logo vamos colher mais poemas e saberemos se o Dulcinéa da nossa termina em éia ou éa. Ela, igual à Geraldina, Mª de Belém, Lenora, Lília são só algumas de nossas incansáveis damas das boas artes. Precisamos é saber mais delas, cultivá-las, divulgá-las, apreciá-las, curtir mais os seus feitos lindos.