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24/06/2010 às 08h10
Cartas entre amigos
 

Não se trata de uma obra literária propriamente dita, mas de uma coletânea de cartas trocadas entre um padre católico – que exerce seu ministério sacerdotal com muita criatividade, num mundo em que as pessoas dão cada vez menos ouvidos a tudo o que tem a ver com religião – e um educador também não menos criativo.

 


Fábio de Melo e Gabriel Chalita conversam sobre um pouco de tudo o que provoca o medo em nossa sociedade: amores e ódios, morte e vida, lembranças e esquecimentos, distanciamentos e convivências, convenções e altruísmos, sucessos e fracassos, dores e prazeres, dúvida e fé. São 18 cartas que constroem uma cadeia textual dialética e filosófica, cheia de intertextualidade, para enriquecer o repertório de leitura ou para contextualizar o leitor que já tem um juízo de gosto mais apurado.

 

 

Carta entre amigos - Sobre ganhar e perder

O sucesso do primeiro Cartas entre amigos foi tanto que os dois autores decidiram continuar trocando cartas entre si, para publicar. Dessa vez o tema transversal de todas as cartas é a síntese do movimento da vida sobre perdas e ganhos. De fato, como diria nosso saudoso Gonzaguinha, “a vida um divino mistério profundo, é o sopro do Criador, numa atitude repleta de amor”. Neste livro podemos refletir um pouco sobre este mistério que o mito explica como “o sopro do Criador”. A vida e seus movimentos que só terminam quando somos surpreendidos pela morte, a vida onde ganhamos, mas também perdemos. A vida onde perdemos, mas também ganhamos.

 

As cartas são poéticas, cheias de frases impactantes reguladas por experiências de seus autores, não muito diferentes das experiências de todos nós. Uma leitura leve, contemplativa e purificadora. Se é verdade que a beleza nomeia as coisas em troca do agrado que nos dão, os dois CARTAS ENTRE AMIGOS merecem ser chamados de beleza, pois, como diz o próprio Fábio de Melo na 16ª carta do 1º livro: “Há poema mais bonito que um gesto de amor? Até os iletrados são capazes dessa literatura”.

 

 

 
 
 
21/06/2010 às 08h15
Sobre Saramago
 

Semana passada o mundo ficou muito mais pobre. Perdemos um dos melhores escritores contemporâneos: o português José Saramago. Não vou aqui fazer eco a tudo o que já foi dito sobre Saramago. Até porque artistas da palavra deixam um legado garantido pela atemporalidade e durabilidade da escrita através dos séculos e, como Saramago era um gênio, a escrita foi apenas o suporte dessa genialidade e, lógico que a imprensa mundial fez barulho por ocasião de sua morte e o fará através dos anos. Assim esperamos!

 

Hoje a tecnologia digital nos proporciona recursos que facilitam o acesso à informação e à apreciação de grandes obras de literatura. Há livros em áudio, vídeo, etc.. São vários tipos de mídia a serviço da informação e da arte. Considero a edição de livros em suportes alternativos de mídia uma iniciativa louvável, sobretudo para portadores de necessidades especiais. Mas ainda defendo o livro impresso, concreto, palpável, manuseável, aquele com cheirinho de novo, recém-saído da gráfica e que muita gente tem preguiça de ler ao ver o tamanho. É esta a verdadeira leitura contemplativa, que estimula a imaginação e que mexe com a memória, a inteligência, a vontade e até a afetividade do leitor.

 

Como autor privilegiado pela era digital, Saramago não morreu sem ver sua obra adaptada para o cinema. Inspirado em sua prosa literária, Ensaio sobre a cegueira é um drama de 117 min. ao qual o crítico James Christopher, do jornal britânico The Times, referiu-se como 'deprimente'. Na verdade, este crítico foi infeliz ao esperar que uma obra literária transportada para a linguagem imagética imprimisse no espectador o mesmo efeito da literatura sobre o leitor. Nada a ver. Cada tipo de arte tem suas próprias leis.

 

Dirigido por Fernando Meirelles, o filme sustenta-se numa epidemia de cegueira que assola uma cidade. A ausência de porquês e do espaço onde se passa o enredo é a imagem da 'cegueira branca' ou da única superfície visível para as personagens infectadas. Aos poucos todos ficam cegos e sobrevivem à custa da exposição de seus instintos primários.  


No enredo, tudo é simbólico: o primeiro homem a ser vitimado pela doença no trânsito, o modo de como a epidemia espalha-se, a quarentena em que os infectados são colocados, a falha dos serviços estaduais, a única pessoa que não é atingida pela epidemia e os internos que tentam resgatar a humanidade perdida. O desvendar desses símbolos culmina na decadência da vida social, com a perda da noção de civilização.  

 

A cegueira faz as personagens enxergarem o que se pode ver só quando se está cego: a sobrevivência dos cegos, de suas emoções e de sua dignidade. É uma lição para quem olha sem reparar no outro. Uma proposta de (re)humanização do indivíduo a partir do olhar para o outro.

 

Se alguém quiser ler outra obra de Saramago não muito alardeada pelos meios de comunicação, sugiro as intermitências da morte. Só um gênio poderia mostrar, na literatura, que o objeto do maior de todos os medos humanos é, na verdade, necessário. Não consigo ver necessidade na morte de Saramago, ainda mais para países de Língua Portuguesa, mas quem sabe o futuro não nos revelará um supra-saramago? 


 

 
 
 
28/04/2010 às 12h33
O Livro
 

Esta semana começou com o dia nacional da literatura infanto-juvenil, instituído através da lei 10.402/02, em homenagem a Monteiro Lobato, que nasceu em 18/04/1882. Vários cânones da literatura universal nasceram ou morreram em 23 de abril (Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Vladimir Nabokov, para citar apenas alguns), razão pela qual A UNESCO instituiu, em 1996, o dia 23 de abril como o dia mundial do livro, comemorado em aproximadamente 100 países através de vasta mobilização de uma rede internacional de editores, livreiros, bibliotecários, escritores, tradutores, críticos e professores de literatura.

Penso ser conveniente aproveitar essas datas alusivas ao livro e à prática da leitura, para propor as seguintes questões: Como é que o brasileiro vê o livro?

Há um autor brasileiro, de cujo nome não me lembro agora, que escreveu uma crônica em que uma criança frustra suas expectativas de escritor ao pegar um livro para usá-lo como degrau a fim de alcançar o botão da TV. Isso ilustra o modo de como os brasileiros em geral tratam o livro, como uma coisa, um objeto que tem peso e tamanho, um corpo, uma porção limitada de matéria, no sentido físico do termo, e que apenas ocupa lugar no espaço, servindo como objeto de decoração ou literalmente de “degrau”. 

O site cultural Resenhando publicou uma crônica de Marcelino Rodriguez sobre a importância da leitura para o crescimento cultural dos brasileiros, que passo a reproduzir agora como proposta de reflexão sobre o crime doloso cometido por gestores escolares, professores, técnicos em educação, orientadores, supervisores, coordenadores, monitores e todo recurso humano (ou seria desumano?) envolvido num processo que deveria ser educacional, mas que a realidade mostra ser criminoso:
 
“Dentre as tantas constatações que já fiz sobre a deficiência da educação no Brasil, a mais dramática é que o brasileiro não tem noção alguma da essência do livro. Ele sabe apenas que o livro é um objeto. Ele não vê o livro como uma parte do espírito da vida, e uma das mais importantes, sem dúvida.
O homem sem conhecimento e sem uma mínima cultura sabe pouco, pensa pouco, produz pouco e desperdiça muito. O livro na verdade é a escova de dente do espírito, se me permitem a metáfora inusitada.

Como escritor, evidente que essa ignorância consentida e essa indiferença em relação ao livro doem mais. Pude sentir na pele o desconhecimento da importância do livro por parte da população. Para o brasileiro médio, um livro não é algo diferente de um artesanato de madeira ou de um porta-cd. É apenas um objeto sem substância viva de vida para ele. Algo descartável. Quem conhece pouco, valoriza pouco.

O que está contido nos livros não são apenas palavras, mas espírito. O que muito me estranha é que mesmo muitos intelectuais não tocam no assunto. O que deve ser feito para se mudar essa cegueira absurda?

Em primeiro lugar, denunciar o crime. O país é um dos mais atrasados do mundo no quesito leitura, que bem poderia passar a ser uma matéria escolar. Por que não, se isso é barato e necessário? Com investimento na leitura na base educacional, garanto que, em duas décadas, a economia do país e a qualidade de vida vão melhorar em, no mínimo, trinta por cento.

Teremos pessoas mais qualificadas, com senso crítico, consciência, imaginação, maior empatia humana, mais responsabilidade e menos preguiça mental. Com uma população nutrida de livros, a vida aqui deixará de ser uma mera luta pela sobrevivência para passar a ser alguma coisa mais interessante para todos. Como diziam tantos sábios, só há um bem, o conhecimento; só há um mal, a ignorância. Uma população que não lê é uma população de ignorantes.”

Em resposta ao texto de Marcelino, gostaria de partilhar com os leitores alguns fatos constatados em escolas públicas e particulares de Belém:

Os alunos da rede pública recebem livros didáticos do MEC e os da particular os compram, mas não os levam para a escola ou porque os professores não exploram os livros como recurso nas aulas ou porque são pesados e difíceis de carregar. Esses mesmos alunos levam celulares, MP10 e câmeras digitais para produzirem vídeos pornôs nos banheiros das escolas.

Ao ouvirem a metáfora inusitada do autor (sim, porque ler... eles não leriam), muitos alunos responderiam que uma escova de dente pesa menos que um livro, pois não seriam capazes de desvendar o sentido de uma metáfora.

O autor refere-se à ignorância consentida, e vocês sabiam que há gestores que recebem propina para mudar a nota de professores? Há gestores que cometem o crime de ameaça velada, assédio moral e constrangimento ilegal contra professores que trabalham direito nessas escolas. O cidadão sente-se obrigado a aderir ao esquema da mediocridade, que se sustenta com um discurso sórdido de “solidariedade” (Precisamos ajudar este aluno, professor!), para não perderem o emprego. E o resultado disso está contemplado nos evidentes produtos da ignorância nacional.

* Marcelino Rodriguez é autor de 'Bom Dia, Espanha', 'A Ilha', 'Café Brasil', 'Mar, Romântico Mar', entre outros. Recebeu o Prêmio Pérgula Internacional.

 
 
 
03/04/2010 às 15h05
Significado literário da Páscoa
 

Páscoa não tem nada a ver com ovos de chocolate. A tradição desses ovos é apenas mais uma das estratégias comerciais que se servem do efeito de eventos sócio-religiosos sobre o espírito humano, para incentivar o consumo.

A Páscoa sustenta-se na literariedade das escrituras sagradas. Refiro-me às narrativas literárias da libertação do povo de Israel, contidas no Êxodo, 2º livro do antigo testamento judaico-cristão, e às narrativas evangélicas da morte e ressurreição de Jesus.

Para os cristãos, a Páscoa representa a ressurreição de Jesus e, como a morte é a condição para a ressurreição, a Páscoa cristã é sinônimo de conversão, morte para o pecado e ressurreição para uma vida nova em Cristo.

Apesar da hegemonia das religiões cristãs no Ocidente, a festa da Páscoa (Pêssach para os judeus) é de origem judaica, comemorada entre os 14º e 22º dias de Nissan, primeiro mês do calendário judaico, que equivale a março ou abril no nosso calendário. Mas não é por isso que comemoramos a Páscoa em um desses dois meses. É que há um calendário litúrgico seguido pela Igreja Católica e por outras Igrejas cristãs, segundo o qual o domingo de Páscoa sempre cai numa data de um desses meses, porque este é sempre o 1º domingo após a sexta-feira santa, dia em que as religiões cristãs celebram o martírio de Cristo.

A páscoa cristã, assim como o Pêssach judaico, é celebrada com uma refeição em família, mas o cardápio desta refeição, no caso da Páscoa cristã, varia de acordo com o gosto ou as condições econômicas de cada família. Na Páscoa judaica, o cardápio é formado obrigatoriamente por pães sem fermento, osso de cordeiro ou ovelha, ovo cozido, escarola, nozes, amêndoas, tâmaras, canela, vinho, salsão, vinagre e água salgada. Trata-se de um ritual familiar rico em simbologia e significados.

 

Desde as suas origens mais remotas, a Páscoa sempre teve o significado de passagem, pois consistia na migração para novas pastagens na lua cheia da primavera. Esse processo migratório seguia todo um ritual com elementos simbólicos: vestimentas, alimentos e sacrifícios de sangue.

 

Na Torah – livro sagrado dos judeus que corresponde aos cinco primeiros livros do antigo testamento na Bíblia judaico-cristã (Pentateuco) e cuja autoria é atribuída a Moisés, o grande libertador e legislador do povo de Israel – a Páscoa adquire um significado teológico.

 

O povo de Israel era escravizado no Egito pelo Faraó. Deus enviou Moisés para libertar os israelitas e levá-los à terra de Canaã. Assim, a Páscoa – que antes era uma festa pastoral e agrícola, voltada à celebração do ciclo de fertilidade da terra – celebraria esta libertação histórica, ocorrida há aproximadamente 3.300 anos.

 

A palavra Pêssach (Páscoa) significa “passar por cima”, no sentido de “poupar”. Refere-se à narração do Êxodo, segundo a qual as famílias judaicas cativas no Egito deveriam imolar um cordeiro cujo sangue deveria marcar as portas de suas casas, pois o Deus hebraico enviaria um anjo para matar os egípcios, mas queria poupar a vida dos primogênitos judeus. Tratava-se de uma estratégia divina para obrigar Faraó a libertar o povo cativo. Desde então, a Páscoa passou a ser uma das festas de peregrinação dos judeus, assim chamadas porque os ritos que atualizavam o êxodo de Israel, a aliança estabelecida com seu Deus e o ingresso na terra prometida, eram todos realizados em Jerusalém, o grande centro de peregrinação religiosa, para onde migravam todos os judeus vindos de diversas regiões. Nas narrativas evangélicas há inúmeros registros dessa tradição. Basta prestarmos atenção às traduções da Bíblia que se referem às festas da Páscoa, de Pentecostes e dos Tabernáculos.

 

Todas três essas festas tinham origem agrícola, ligadas a importantes colheitas das estações produtivas do ano. A da Páscoa celebrava a colheita da cevada na primavera; a de Pentecostes celebrava a colheita do trigo no verão; e a dos Tabernáculos celebrava a colheita dos frutos no outono.

 

Na era cristã, duas dessas festas revestiram-se de um significado favorecido pelas narrativas literárias do novo testamento: Páscoa e Pentecostes. Os eventos da ressurreição de Jesus e da descida do Espírito Santo aconteceram, segundo essas narrativas, nas mesmas épocas da Páscoa e de Pentecostes respectivamente, razão pela qual a Páscoa passou a significar a ressurreição e Pentecostes, a vinda do Espírito.

O importante é que, tanto entre os judeus quanto entre os cristãos, a Páscoa não perdeu seu significado de passagem de uma condição desfavorável de exílio, cativeiro e morte, para outra de êxodo, libertação e vida nova.


Que, nesta Páscoa cristã, nós celebremos não somente os rituais próprios da religião que seguimos, mas principalmente um rito pessoal de passagem, que é um imperativo permanente da condição humana: a mudança.

É uma excelente oportunidade para examinar a própria consciência e medir como anda nossa empatia, compreensão, perdão, solidariedade e amor, fazendo da libertação do povo hebreu cativo e da ressurreição de Jesus termos de comparação que medem as prisões e mortes que provocamos uns nos outros.

 

A grande lição que se tira das narrativas literárias bíblicas sobre a Páscoa é que o Criador quis passar pela experiência existencial humana de seu povo escolhido, a fim de anular todos os seus argumentos humanos contrários àquilo pelo e para o qual fomos criados: O AMOR.

 
 
Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação.
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