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31/01/2011 às 14h35
As leituras de 2011 |
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Na era dos jogos e suportes eletrônicos da informação, das redes sociais e do cinema, que ainda sobrevive, graças à possibilidade de se explorarem os novos recursos tecnológicos de som, imagem e efeitos especiais na produção de filmes, a leitura contemplativa – aquela que exige do leitor uma apreciação mais apurada, para a qual é necessária uma iniciação, e que permite a formação de um repertório cada vez mais amplo e facilitador da compreensão literária – está se restringindo cada vez mais a um seleto grupo de leitores.
Mesmo assim, é possível delimitar o que essa elite intelectual está lendo, o que as editoras estão lançando e quais os títulos e autores que têm movimentado o mercado editorial.
Em 2011, pudemos destacar muitos lançamentos, cada editora tem sua lista dos mais vendidos, mas publicar livros hoje em dia, com todas as pompas de divulgação da nova obra entre o público e a crítica, acaba sendo uma realização mais possível para escritores abastados, embora a criatividade de muitos se estenda também às estratégias de editoração e de publicação da obra, facilitada também pela internet, o principal meio de divulgação de novas obras.
Passeando pela rede, você encontra alguns títulos e autores que se destacaram em 2011, não necessariamente lançamentos:
As Esganadas, de Jô Soares (Cia das Letras): Todo mundo conhece o Jô como apresentador e como ator, mas poucos conhecem sua veia literária. Ele é autor do best-seller O Xangô de Baker Street. Em As Esganadas, lançado em 2011, ele explora o tema dos assassinatos em série de mulheres gordas. Não se trata de um suspense para descobrir quem é o assassino e qual sua motivação psicológica, mas de uma narrativa cujas ações policiais mais metodológicas travam um embate com a astúcia do assassino. Uma das características impressionantes da obra é o tempo na narrativa. Jô escolhe um momento do passado para cenário de sua narração e entra em minúcias curiosas, ao tecer a trama.
Em Algum Lugar do Paraíso, de Luís Fernando Veríssimo (Editora Objetiva): O autor de Comédias da Vida Privada lançou outro livro com 41 crônicas publicadas originalmente em O Estado de São Paulo, nos últimos cinco anos. Aliás, se tem uma coisa que Veríssimo faz melhor que tocar sax é escrever crônicas, abordando o cotidiano da vida social, como manda o gênero. Em tempos de intertextualidade, um dos textos mais interessantes da obra chama-se Em Cafarnaum, uma referência a um dos espaços bíblicos em que Jesus realizara um de seus muitos milagres. A ação fica por conta de um comerciante que quer se tornar sócio de um milagreiro. O mérito deste texto é, sem dúvida, a imperiosa necessidade de o leitor fazer um movimento hipertextual rumo ao evangelho, a fim de incorporá-lo ao seu repertório de leitura, para então compreender toda a riqueza literária desta crônica. Outra crônica do livro que também merece destaque é Microfone Escondido. Um casal esconde um microfone no elevador, a fim de descobrir o que os amigos pensam deles. Toda vez que oferecem um jantar em casa, há uma nova descoberta que culmina em confusões e mágoas.
A mente de Nietzsche, de Nildo Viana e Marcelo Caixeta: Este livro não é bem uma obra de arte literária, mas vale a pena por se basear em obras filosóficas, estudos biográficos e outros documentos que permitem a descrição da mente de um dos maiores filósofos que este mundo já conheceu. A Mente de Nietzsche é um estudo sobre sua família, infância, vida afetiva, relacional, seu funcionamento cerebral, seu momento histórico e sociológico, e não visa a reduzir seu gênio à maldade ou à perversão, como prefere a moral religiosa dominante contra todos os grandes pensadores que contribuíram para o despertar da consciência crítica das pessoas.
A Filha do Ferro, de Julie Kagawa: É um romance cuja protagonista é a conjunção de um mito e de uma verdade literária. O mito é o da princesa encantada de verão. A verdade é a da mulher humana que não pode ser classificada em categorias ordinárias. A personagem transita, no enredo da obra, entre o abandono e a privação da liberdade, depois de haver sofrido uma grande decepção amorosa, e se vê obrigada a parar de lamentar a perda dos poderes do mito e a encarar sua verdade com suas próprias forças. Confiar em alguém e se arriscar a ser traída de novo poderia ser fatal. A Filha do Ferro é uma referência para as mulheres do século XXI se posicionarem contra o mito da princesa e encararem sua realidade de fêmeas humanas, com características próprias de gênero que lhes permitirão a fragilidade ou a força real, dependendo de quão conscientes forem acerca de si mesmas.
Então você vai ser papai, de Peter Downey: No campo das relações humanas e da sexualidade, Peter Downey lançou um guia escrito especialmente para homens que, embora dotados da função reprodutora da sexualidade humana, não sabem nada sobre criar filhos. Assim como “A Família de que se Fala e a Família de que se Sofre”, do saudoso psiquiatra e psicólogo José Ângelo Gaiarsa, o livro de Downey também derruba mitos que cercam a paternidade, só que com uma fundamentação mais pragmática que teórica. Peter Downey discute a revolução definitiva que acontece na vida dos homens grávidos, do espermatozoide à chegada do bebê. Se o leitor for esperto, perceberá que essa revolução mudará sua vida para sempre, pois o nascimento de seu filho será apenas o divisor de águas que deve deixar sua vida egoísta de solteiro definitivamente para trás, pois não existe maior fracasso para um homem que serem ele e seu rebento um peso na vida de pessoas que nada tiveram a ver com sua opção pela paternidade.
Nova Antologia do Conto Russo, parceria da Editora 34 com o Professor Bruno Gomide, da USP. Quarenta autores, quarenta contos, duzentos anos da melhor prosa russa reunida em um único volume, ou seja, tudo de mais legal da literatura que a gente mais gosta está aqui: Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov, Tolstói, Górki, Pasternak, Bábel e Nabókov, Gárchin, Odóievski, Saltikov-Schedrin, Katáiev, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov. Alguns nunca publicados no Brasil, que a gente não conhece. O livro foi batizado de ‘Nova Antologia’ em referência à publicação em dois volumes de 1961, chamada de ‘Antologia do Conto Russo’, que trouxe ótimos textos dos grandes russos e se tornou referência.
A lista de novidades que movimentaram o mercado de livros em 2011 é realmente imensa. Não daria para fazer uma sinopse de cada lançamento ou de cada título bem vendido, mas eu incluiria nesta lista os seguintes títulos: Contra o dia (Thomas Pynchon); Sunset Park (Paul Auster); O Terceiro Reich (Roberto Bolaño); Branco Noturno (Ricardo Piglia); Guerra aérea e literatura (W. G. Sabald); Rock & Roll e Outras Seis Peças (Tom Sheppard); Os últimos soldados da Guerra Fria (Fernando Morais); Mecanismos Internos (J. M. Coetzee); Liberdade (Jonathan Franzen); O Balanço da Respiração (Herta Müller); A Ninfa Inconstante (Guillermo Cabrera Infante) e Retrato do Viciado Quando Jovem (Bill Clegg).
“Feliz por Nada”, de Martha Medeiros (L&PM Editores): Deixei este por último porque quero aproveitar o gancho de seu tema, para dar minha mensagem de ano novo.
Martha Medeiros é destacada romancista, cronista e poeta, que já teve obras adaptadas para o cinema, para a TV e para o teatro. Nesta coletânea que não foi lançada em 2011, mas que vendeu bastante neste ano. Martha Medeiros aborda temas como o amor, a família e a amizade. “Feliz por nada é a opção por uma vida conscientemente vivida, mais leve, mas nem por isso menos visceral” – afirma a autora.
Geralmente, quando uma pessoa exclama “Estou tão feliz!”, é porque alcançou alguma meta previamente estabelecida. Mas as novidades envelhecem, por isso não é seguro sentir-se feliz apenas por algumas dessas coisas. A coletânea de mais de 80 crônicas de Martha sugere a felicidade por coisas e situações ordinárias, próprias do cotidiano de nossa vida pessoal e social, como o começo de um novo ano, um tempo que temos para executar metas novas ou antigas, pagar as próprias dívidas ou poder fazer mais dívidas, receber ou fazer um elogio, uma viagem, um defeito superado, uma qualidade reconhecida, um lugar onde morar, ter o que comer e beber, vestir e calçar todos os dias... Embora nem todo mundo tenha isso, o que faz com que ser feliz por esses motivos seja ainda o mesmo que ser feliz por muito.
Ao cabo das leituras proporcionadas pelo livro Feliz Por Nada, a conclusão a que se chega é a de que essa tal de felicidade inferniza.
Por isso desejo, aos leitores deste blog, que em 2012, em vez de ficarem presos a um ideal de felicidade, vivam um dia de cada vez, sem grandes expectativas. Até porque, no contexto atual, qualquer expectativa, por mais simples que seja, pode se tornar falsa, se grande demais, extraordinária demais. E aí, caros leitores, o tombo pode ser um excelente pretexto pra gente ser infeliz.
Importante é você cultivar um compromisso com a alegria, relativizar as chatices diárias e se concentrar em aliviar o seu cotidiano e não atormentar o dos outros. Não precisamos estar sempre alegres ou realizados, para nos sentirmos felizes. Felicidade é calma, consciência, tolerância, aproveitamento da dinâmica da existência, rir de si mesmo, se preciso for.
Deixe-se em paz, não se cobre nada. Já bastam as cobranças dos outros. Não se culpe, não se torture, tenha consciência de seus limites e faça o melhor que puder.
Se todo mundo fizer assim, teremos mais a comemorar no final de 2012. FELIZ ANO NOVO DE NOVO!
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22/12/2011 às 15h20
Papai Noel: De bom velhinho a porco capitalista |
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Natal lembra o nascimento de Jesus para os cristãos, mas também é mais uma das muitas datas comerciais exploradas pela força do consumo capitalista, cujo símbolo maior, nesta época, é o lendário “Bom Velhinho”.
Mas o que Papai Noel tem a ver com literatura, Helder? Tudo! Além de ser protagonista de literatura oral, esta personagem tornou-se também sujeito de ações enredadas na literatura escrita e até em manifestações artísticas não verbais. Foi um professor nova-iorquino de literatura grega, Clemente Moore, quem escreveu o poema Uma visita de São Nicolau, na primeira metade do século XIX (1822), coincidência ou não, época em que se vivia o Romantismo literário na Europa e no Brasil.
Procurei o poema na internet, pensando em comentá-lo aqui, mas não encontrei nenhuma tradução que prestasse. Então basta dizer que, no poema, Papai Noel viaja num trenó puxado por renas (animal da família dos cervídeos) e entra nas casas das crianças pela chaminé. Sem dúvida, este poema funcionou, ao lado de outras peças textuais, como matriz impressa da oralidade que hoje veicula e dissemina a lenda do Papai Noel no imaginário infantil.

Lembro-me de uma banda paulista de rock que surgiu nos anos 80, chamada Garotos Podres e que se tornou referência de protesto contra o mito do Papai Noel:
Papai Noel, Filho da P... Rejeita os miseráveis Eu quero matá-lo Aquele porco capitalista. Presenteia os ricos E cospe nos pobres [...] Mas nós vamos sequestrá-lo E vamos matá-lo Por quê? Aqui não existe natal [...]
A letra da canção – originalmente batizada com um enxovalho bem mais digno dessa personagem do imaginário social do que o “velho batuta” imposto pela censura que acha ser Papai Noel casado com Mamãe do Céu, fazendo uma salada entre o profano e o sagrado... – Esta letra, dizia eu, é contemplada com a compreensão de quem consegue perceber as contradições da lenda do Papai Noel no contexto de pobreza dos países que vivem à margem das potências econômicas mundiais.
Os avanços da pesquisa sociológica sobre a tradição natalina revelam que a configuração dessa personagem foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia, no ano 280 depois de Cristo. O bispo ajudava os pobres, deixando saquinhos de moeda próximos às chaminés das casas. Como a maioria das autoridades eclesiásticas muito populares, Nicolau foi transformado em santo.
A devoção a São Nicolau na Alemanha foi associada à narrativa popular cujo sujeito da mesma ação caridosa do bispo mora no Pólo Norte, com a senhora Noel, elfos (personagens mitológicos da literatura universal) e renas. Parece ser recorrente nas várias versões desta lenda, o papel dos elfos e das renas. Os elfos ajudariam o Bom Velhino a fabricar os brinquedos, e as renas voadoras puxariam o trenó que lhe serviria de transporte na distribuição desses brinquedos pelo mundo, na noite de Natal, tal qual fazia São Nicolau com as moedas.
Essa narrativa oral espalhou-se rapidamente pelo mundo e foi ganhando várias versões. Como toda literatura oral de origem popular, há mudanças num ou noutro elemento da composição narrativa, mas o conteúdo central é sempre o mesmo, no caso, a caridade, a solidariedade que imita a oferenda evangélica dos magos do Oriente que trazem ouro, incenso e mirra, para festejar o nascimento do Rei prometido. Nos Estados Unidos, o Bom Velhinho ganhou o nome de Santa Claus, no Brasil, de Papai Noel e, em Portugal, de Pai Natal. Desde sua origem alemã, a associação desta personagem lendária com a figura do histórico São Nicolau foi permitindo sua configuração popular. O cartunista alemão Thomas Nast o descreveu vestido em vermelho e branco, com cinto preto. Essa imagem foi reforçada por campanhas publicitárias de grande sucesso, que ajudaram a sacramentar a imagem do Bom Velhinho, criada por Nast.
O problema que resulta na rebeldia da canção de Garotos Podres é que a figura do Papai Noel está presente na vida das crianças de todo mundo. Os pais alimentam o imaginário infantil com histórias de Papai Noel, usando a lenda como recurso coercitivo de indução ao bom comportamento das crianças, condutas idealizadas por pais e “educadores” em geral. “O bom velhinho de barbas brancas e roupa vermelha que, na véspera do Natal, traz presentes para as crianças que foram obedientes e se comportaram bem durante o ano”.
Como Papai Noel não existe de verdade, a perniciosidade dessa inconsequente ingenuidade paterna/materna – e, por conseguinte, social – consiste em atribuir ao Papai Noel a autoria de um prêmio por bom comportamento que, na verdade, é dos pais. E as crianças órfãs? E aquelas cujos pais não têm dinheiro para pagar o preço dessa lenda? Por isso que o Papai Noel, em muitos países e nas classes sociais menos abastadas, tornou-se um grande Filho da P... Porque há sociedades e grupos sociais cuja identidade condiciona-se à rejeição do que lhe rejeita. “Papai Noel [...] rejeita os miseráveis”, e não adiantam as inúmeras campanhas sazonais de solidariedade e de incentivo à generosidade dos abastados, que colocam um quilo de alimento não perecível na mesa das famílias pobres e metem um brinquedo na mão das crianças carentes, para mascarar a pobreza, ao final de cada ano de exploração das mazelas sociais, em nome de Jesus, do Natal, de São Nicoloau, Santa Claus ou do raio que o parta.
A verdade é que, se existe um mito pernicioso para a sociedade, é o mito do Papai Noel. Por causa deste mito, que jamais atendeu aos imperativos da cultura brasileira, nossos pobres são sujeitos pacientes de uma ação podre e literalmente verbal, no sentido de blá, blá, blá... Uma hipocrisia que, de um lado, emociona as almas românticas seduzidas por uma beleza falsa e, de outro, revolta o senso crítico que qualquer cidadão inteligente.
Mas, mesmo assim, fui ao shopping comprar presentes pra mim e para as pessoas que amo e que merecem, posto que haja quem, embora amado, não mereça, e quem paga e distribui esses presentes não é Noel coisa nenhuma, sou eu mesmo, e com uma grana que me custa muito, deveras muito trabalho, além de alguns sapos mal digeridos!
Feliz Natal a todos os leitores deste blog e que venha 2012!!! |
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22/12/2011 às 15h16
Papai Noel: De bom velhinho a porco capitalista |
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Natal lembra o nascimento de Jesus para os cristãos, mas também é mais uma das muitas datas comerciais exploradas pela força do consumo capitalista, cujo símbolo maior, nesta época, é o lendário “Bom Velhinho”. Mas o que Papai Noel tem a ver com literatura, Helder? Tudo! Além de ser protagonista de literatura oral, esta personagem tornou-se também sujeito de ações enredadas na literatura escrita e até em manifestações artísticas não verbais. Foi um professor nova-iorquino de literatura grega, Clemente Moore, quem escreveu o poema Uma visita de São Nicolau, na primeira metade do século XIX (1822), coincidência ou não, época em que se vivia o Romantismo literário na Europa e no Brasil. Procurei o poema na internet, pensando em comentá-lo aqui, mas não encontrei nenhuma tradução que prestasse. Então basta dizer que, no poema, Papai Noel viaja num trenó puxado por renas (animal da família dos cervídeos) e entra nas casas das crianças pela chaminé. Sem dúvida, este poema funcionou, ao lado de outras peças textuais, como matriz impressa da oralidade que hoje veicula e dissemina a lenda do Papai Noel no imaginário infantil. Lembro-me de uma banda paulista de rock que surgiu nos anos 80, chamada Garotos Podres e que se tornou referência de protesto contra o mito do Papai Noel:
Papai Noel, Filho da P... Rejeita os miseráveis Eu quero matá-lo Aquele porco capitalista. Presenteia os ricos E cospe nos pobres [...] Mas nós vamos sequestrá-lo E vamos matá-lo Por quê? Aqui não existe natal [...] A letra da canção – originalmente batizada com um enxovalho bem mais digno dessa personagem do imaginário social do que o “velho batuta” imposto pela censura que acha ser Papai Noel casado com Mamãe do Céu, fazendo uma salada entre o profano e o Sagrado... – Esta letra, dizia eu, é contemplada com a compreensão de quem consegue perceber as contradições da lenda do Papai Noel no contexto de pobreza dos países que vivem à margem das potências econômicas mundiais. Os avanços da pesquisa sociológica sobre a tradição natalina revelam que a configuração dessa personagem foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia, no ano 280 depois de Cristo. O bispo ajudava os pobres, deixando saquinhos de moeda próximos às chaminés das casas. Como a maioria das autoridades eclesiásticas muito populares, Nicolau foi transformado em santo. A devoção a São Nicolau na Alemanha foi associada à narrativa popular cujo sujeito da mesma ação caridosa do bispo mora no Pólo Norte, com a senhora Noel, elfos (personagens mitológicos da literatura universal) e renas. Parece ser recorrente nas várias versões desta lenda, o papel dos elfos e das renas. Os elfos ajudariam o Bom Velhino a fabricar os brinquedos, e as renas voadoras puxariam o trenó que lhe serviria de transporte na distribuição desses brinquedos pelo mundo, na noite de Natal, tal qual fazia São Nicolau com as moedas. Essa narrativa oral espalhou-se rapidamente pelo mundo e foi ganhando várias versões. Como toda literatura oral de origem popular, há mudanças num ou noutro elemento da composição narrativa, mas o conteúdo central é sempre o mesmo, no caso, a caridade, a solidariedade que imita a oferenda evangélica dos magos do Oriente que trazem ouro, incenso e mirra, para festejar o nascimento do Rei prometido. Nos Estados Unidos, o Bom Velhinho ganhou o nome de Santa Claus, no Brasil, de Papai Noel e, em Portugal, de Pai Natal. Desde sua origem alemã, a associação desta personagem lendária com a figura do histórico São Nicolau foi permitindo sua configuração popular. O cartunista alemão Thomas Nast o descreveu vestido em vermelho e branco, com cinto preto. Essa imagem foi reforçada por campanhas publicitárias de grande sucesso, que ajudaram a sacramentar a imagem do Bom Velhinho, criada por Nast. O problema que resulta na rebeldia da canção de Garotos Podres é que a figura do Papai Noel está presente na vida das crianças de todo mundo. Os pais alimentam o imaginário infantil com histórias de Papai Noel, usando a lenda como recurso coercitivo de indução ao bom comportamento das crianças, condutas idealizadas por pais e “educadores” em geral. “O bom velhinho de barbas brancas e roupa vermelha que, na véspera do Natal, traz presentes para as crianças que foram obedientes e se comportaram bem durante o ano”. Como Papai Noel não existe de verdade, a perniciosidade dessa inconsequente ingenuidade paterna/materna – e, por conseguinte, social – consiste em atribuir ao Papai Noel a autoria de um prêmio por bom comportamento que, na verdade, é dos pais. E as crianças órfãs? E aquelas cujos pais não têm dinheiro para pagar o preço dessa lenda? Por isso que o Papai Noel, em muitos países e nas classes sociais menos abastadas, tornou-se um grande Filho da P... Porque há sociedades e grupos sociais cuja identidade condiciona-se à rejeição do que lhe rejeita. “Papai Noel [...] rejeita os miseráveis”, e não adiantam as inúmeras campanhas sazonais de solidariedade e de incentivo à generosidade dos abastados, que colocam um quilo de alimento não perecível na mesa das famílias pobres e metem um brinquedo na mão das crianças carentes, para mascarar a pobreza, ao final de cada ano de exploração das mazelas sociais, em nome de Jesus, do Natal, de São Nicoloau, Santa Claus ou do raio que o parta. A verdade é que, se existe um mito pernicioso para a sociedade, é o mito do Papai Noel. Por causa deste mito, que jamais atendeu aos imperativos da cultura brasileira, nossos pobres são sujeitos pacientes de uma ação podre e literalmente verbal, no sentido de blá, blá, blá... Uma hipocrisia que, de um lado, emociona as almas românticas seduzidas por uma beleza falsa e, de outro, revolta o senso crítico que qualquer cidadão inteligente. Mas, mesmo assim, fui ao shopping comprar presentes pra mim e para as pessoas que amo e que merecem, posto que haja quem, embora amado, não mereça, e quem paga e distribui esses presentes não é Noel coisa nenhuma, sou eu mesmo, e com uma grana que me custa muito, deveras muito trabalho, além de alguns sapos mal digeridos! Feliz Natal a todos os leitores deste blog e que venha 2012!!!
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02/11/2011 às 10h02
Considerações filosóficas e literárias sobre a morte |
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Há quem torça o nariz para a morte e para tudo o que a lembre: funeral, cemitério, velório, caixão, etc. Pra mim isso só tem um nome: frescura! Existe burrice maior do que viver como se nunca fosse morrer? A respeito desse tipo humano que prefere ignorar seu destino, Machado de Assis ironiza: 'O homem tem uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente” (Memórias Póstumas de Brás Cubas).
Hoje é o dia consagrado àqueles que passaram desta pra... Melhor? Como sabemos que é melhor? Não sabemos. Supomos. Esta suposição baseia-se num tema bastante recorrente na literatura: a fuga ou negação da realidade. Quando nego minha realidade, eu me refugio nalgum ponto imaginário ou da memória. Este ponto se supõe sempre melhor que a realidade. Vem daí a concepção de que uma suposta realidade posterior à morte seja melhor que a realidade vivida aqui, e há quem leve esta lógica ao pé da letra. Mas, surpreendidos pela morte de alguém que amamos, podemos empreender um movimento em direção à memória que não é necessariamente uma fuga, mas traz consolo e conforto para a alma dos que ainda ficam aqui, vislumbrando este horizonte de vaidades e ilusões. É aí que entra a importância deste dia.

O dia de finados é a celebração da memória daqueles que um dia estiveram, física e de diversos outros modos, em nossas histórias de vida; pessoas que conviveram conosco, que partilharam de nosso lugar no tempo e no espaço e de quem herdamos um pouco do que somos. Lembrar-se deles é recordar o passado e imprimir, já no presente, um futuro movido por estes laços de afeto.
Mas antes de falarmos da morte na literatura, convém ressaltar, a título de curiosidade, que esta é uma data do calendário cristão, embora a tradição de recordar os mortos seja bastante anterior à cultura judaico-cristã. Na Bíblia temos registros da visitação aos mortos entre os judeus. Foi visitando o santo sepulcro que descobriram Jesus ressuscitado. Olha aí a visitação às necrópoles como signo da ressurreição. Quem evita ir a cemitérios, evita uma consciência essencial para a vida em plenitude: a consciência da finitude de nosso corpo, de nosso tempo neste espaço e da urgência em “amar as pessoas, como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há”. Afinal, o que é o amanhã diante da certeza de que podemos ser surpreendidos pela morte a qualquer momento?
Os primeiros cristãos visitavam os túmulos dos mártires, para rezar pelos que tinham morrido sem martírio. No século IV, a Igreja já celebrava missa pelos mortos e, desde o século XIII, passou a dedicar um dia do calendário litúrgico, para rezar por todos os mortos. O dia 2 de novembro foi a data escolhida, porque no 1º dia deste mês celebram-se todos os santos na Igreja Católica. Afinal, santo não é somente o canonizado pelo papa, mas sim todos os que morrem em estado de graça ou, como dizem nossos irmãos protestantes, morrem no Senhor. O dia 2 de novembro é dedicado, portanto, a todos os mortos que não são lembrados na oração, santos ou não.
As crendices populares também “canonizam” santos, espíritos a quem se atribuem milagres, como é o caso de Severa Romana e Doutor Camilo Salgado, além de Josephina Conte, a lendária moça do táxi, conhecidíssima aqui em Belém, graças à literatura oral.

Independentemente da fé ou da incredulidade humana, o fato é que a morte como mistério suprarracional, como fim ou como estágio transitório entre mundos, é um tema fascinante e matéria-prima não apenas de especulações filosóficas ou de estudos científicos, mas também da literatura. É, portanto, um tema que ultrapassa os campos da religião.
Na Ilíada, de Homero, a morte é o recurso para a imortalidade, no sentido de que o herói literário era aquele que arriscava sua vida em combate. Se viesse a morrer, ficaria imortalizado na memória das gerações posteriores. A morte como consequência ou símbolo da coragem manteve-se como motivação temática até hoje, desde os poetas elegíacos. Na Odisseia, Aquiles lamenta a brevidade da vida. Na literatura grega, parece prevalecer a adversidade entre a vida, que é boa, e o fato de deixarmos de existir pela morte. (Eurípides, Alceste, 692-693 – Feres: “Na verdade, considero longo o tempo que se está debaixo da terra; a vida é curta, mas, no entanto, doce.”).
Esta concepção que os gregos tinham da morte, em especial os do período helenístico, tem muito a ver com o que nós hoje pensamos a respeito. Foi nas Aulas de Literatura (assim mesmo, com iniciais maiúsculas) de minhas queridíssimas Juruema Bastos e Socorro Simões, no Curso de Letras da UFPA, que eu aprendi a reverenciar a morte como um fato inevitável, como certeza absoluta, como mistério e como uma motivação para valorizar a vida, através do que seria sua mais excelente antítese paradoxal (Eurípides, Suplicantes, 775-777 – Adrasto: “Este bem é o único, para os mortais, que, uma vez perdido, não é possível retomar – a vida humana. Existem meios para alcançar as riquezas”).
As concepções da finitude da vida na matéria orgânica, que no século XVIII tanto influenciaram os poetas árcades a pregarem em suas poesias o princípio hedonista do Carpe Diem, estão presentes em Epicuro, Carta a Meneceu (D.L. X. 124): “Todo o bem e todo o mal residem na sensação; ora a morte é a privação da sensação”. Também na Carta a Heródoto (D.L. X. 125): “A morte nada é para nós, pois quando nós existimos, ela não está presente; quando ela está presente, então já não existimos”.
De acordo com esta concepção, a vida acaba com a morte ou, com o perdão do trocadilho, a morte acaba com a vida. Deixamos de existir com o fim da vida orgânica de nosso corpo. Por isso devemos valorizar nosso lugar no tempo e no espaço, pois um dia deixaremos de existir, ao menos fisicamente.
Mas voltando a falar da reverência aos mortos, eu acredito que o pensamento, na ausência da possibilidade de sua verbalização por meio da linguagem facultada pela vida orgânica, é por si mesmo a forma mais excelente de comunicação com o mundo espiritual. Pensamos, lembramos, e logo a lembrança traz o outro do jeito que ele agora pode vir. Isso pode ser um devaneio, para quem está acostumado a um raciocínio cartesiano e materialista. Mas se o amor fosse condicionado à matéria orgânica, à possibilidade de uma porção limitada de matéria ocupar lugar na dimensão espaço-temporal, não seria amor. “O amor é o fogo que arde sem se ver” – diria Camões, que também conhecia essa forma de comunicação com os mortos:
Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te Alguma coisa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.
Essa supremacia do amor sobre a realidade antitética vida/morte é o que diz Sófocles, Édipo em Colono, 1224-1227 (Coro): “Não ter nascido prevalece sobre qualquer outra ideia. Mas quando se aparece à luz do dia, a melhor sorte a seguir é ir, o mais depressa possível, para o sítio de onde se veio.” Este sítio de onde se veio faz lembrar-me de uma frase não menos poética de um padre católico: “Esta fome de felicidade, é saudade do Infinito, é saudade do Paraíso, é saudade que a gente tem”.
Todo amor é metafísico. Todo amor é infinito, heterogêneo, pluriforme e, portanto, imortal. Se não superar esta certeza chamada morte, amor nunca terá sido.
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