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31/08/2007 às 16h28
Escarra nessa boca que te beija |
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Quero hoje comentar OS VERSOS ÍNTIMOS de Augusto dos Anjos e propor-lhes uma reflexão sobre traição:
VERSOS ÍNTIMOS
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te a lama que te espera! O Homem que, nesta terra miserável, Mora entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera
Toma um fósforo, acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro. A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
O poeta fala em 'quimera' que, em sentido figurado, quer dizer 'imaginação; fantasia, utopia, sonho'. Ninguém assiste ao 'enterro' das nossas ilusões quando frustradas pela Ingratidão que, no poema, aparece personificada numa pantera – símbolo também de pessoa cruel.
Na segunda estrofe, a falta de fé generaliza-se em imagens de lama, terra miserável e feras. Tudo isto como um imperativo que dissemina o mal de tal maneira que a gente até se arrepende do bem que já fez. E esta é a tônica arrematada nos dois tercetos seguintes.
Na imagem do eu tomando um fósforo e acendendo um cigarro, lembro-me dos versos de Mário de Sá Carneiro: 'Sou [...] pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro'.
Quando esse pilar despenca, o tédio necessita de um suporte que pode ser o outro. Ilustrando bem a idéia de Augusto dos Anjos, quando não há mais outro a quem se possa chegar, sustenta-se o tédio da vida com o fósforo, cujo fogo potencial executa somente o acender de um cigarro, símbolo da solidão ou da liberdade, a que, segundo Sartre, estamos 'condenados'.
Os versos finais do poema são belíssimas construções que até compensam a tristeza: 'O beijo, amigo, é a véspera do escarro' – gradação que vai do carinho ao seu paradoxo, o nojo da traição; 'A mão que afaga é a mesma que apedreja' – um único sujeito para ações antitéticas.
A estrofe final é um conselho do poeta àqueles que ainda são alvo da suposta piedade alheia, para que apedrejem e escarrem primeiro, não se iludam com a solidariedade de ninguém, nem com afagos e beijos.
Lembro-me agora dos inúmeros namorados e maridos sacanas que eu conheço, que traem suas mulheres (alguns dos quais enrustidos), que lhes dão a senha do orkut, do msn, do banco ou do 'diabo que os carregue', para lhes assegurar o atestado de beijos e afagos, para alimentar as quimeras românticas femininas, para mascarar a companhia ingrata que lhes fazem, a lama e a fera que neles habita.
Lembro-me também da ingenuidade – pra não dizer burrice mesmo – dessas mulheres que pagam o maior mico e só descobrem o papelão que fizeram, ao não escarrarem primariamente na boca que lhes beija, depois que meio mundo já conhece o afago da mão vil que elas acreditam (ou fingem) ser exclusivamente delas.
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20/08/2007 às 16h31
A genialidade do anjo pornográfico em frases soltas |
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'Uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão' – com este enredo o pernambucano Nelson Rodrigues revela-se, com apenas 8 anos de idade, num concurso de redação escolar, o iminente escritor de romances, contos, crônicas e textos para teatro, televisão e cinema. Todos estes gêneros unificados pela 'sacanagem', que desafia as teimosas tentativas de institucionalizar a repressão aos instintos impublicáveis do homem.
Infelizmente aqui não dá para reproduzirmos uma das obras de Nelson e comentar. Mas, aproveitando o gancho de seu aniversário de nascimento, no próximo dia 23 de agosto, quando então ele completaria 95 anos de idade, quero comentar algumas das frases atribuídas a ele e coligidas por Ruy Castro em 'Flor de Obsessão' (São Paulo, Cia. das Letras, 1997):
'A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem' – com esta crença ele certamente chegou aonde chegou em termos literários, pois nunca se deixou levar pelo cordão de puxa-sacos que normalmente cercam aqueles que se destacam minimamente em tudo o que fazem.
'O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade' – que o digam os antigos (como eu) militantes da esquerda. Mas tem frase também para os que chegaram ao poder com o trabalho da militância: 'Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria'.
Esta cai como uma luva para as aeromoças brasileiras, em tempos de crise aérea: 'Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar'.
Atenção senhores ministros e secretários de governo, esta é para vós: 'O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas'.
'A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades' – contra a ditadura da idade, que idealiza a juventude como a melhor fase da vida, a ponto de fazer muita gente ter vergonha de admitir sua verdadeira idade.
'O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda' – há tanto despreparo para a apreciação das artes, há tanta falta de iniciação em arte, que quanto mais uma obra de arte for classificada como imbecil, maior pode ser seu valor artístico.
Falando a respeito da inversão de valores que imperava no século XX: 'Em nosso século, o grande homem pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta'.
'Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém' – para nos fazer lembrar de que a fidelidade exclusivista, que visa a sustentar as relações fechadas e a posse continuada dos bens, será sempre ameaçada pelo adultério que existe (em abundância!) em todas as sociedades nas quais se tem a monogamia como 'o certo'.
'Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível' – aqui a necessidade de se fugir da rotina nas relações conjugais.
Finalmente, uma frase rodriguiana que serve a todos nós: 'Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.'
E outra que define bem o foco narrativo de Nelson Rodrigues: 'Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico'.
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16/08/2007 às 16h45
20 anos sem um poeta que nos diga: 'Não se mate' |
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Há 20 anos, aos 84 anos de idade, morria o poeta Carlos Drummond de Andrade. Um simples texto para um blog de Literatura é pouco para tratar de Drummond e de sua obra, mas, em homenagem à memória dessa 'alma nossa gentil que se partiu', quero hoje comentar o poema:
NÃO SE MATE
Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. Não se mate, oh não se mate, reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão, se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico, a noite passou em você, e os recalques se sublimando, lá dentro um barulho inefável, rezas, vitrolas, santos que se persignam, anúncios do melhor sabão, barulho que ninguém sabe de quê, pra quê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical. Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho, Carlos, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Nesse poema, Carlos Drummond de Andrade fala consigo mesmo como se fosse uma segunda pessoa. Pode-se distinguir o eu do poeta e o eu do poema em “Não se mate”. O eu do poema é a voz que profere o discurso poético. O eu do poeta é a pessoa com quem se fala, representada pelo vocativo “Carlos”.
A primeira estrofe revela a impossibilidade de se ter controle sobre o amor e sua incompatibilidade com o mundo moderno, pois o amor é imprevisível.
Essas reflexões se processam no tempo, pois o poeta escreve numa sexta-feira (“depois de amanhã é domingo”). A sexta-feira é o último dia útil da semana, simboliza um momento de transição em que a passagem do tempo tem a ver com as mudanças, que geram inquietude, fazendo do amor um sentimento cujo futuro não se define.
Na segunda estrofe, o eu do poema faz um apelo ao eu do poeta para que este não se mate diante das inquietudes provocadas pelo amor. O amor é irresistível, seria inútil resistir-lhe. Isso revela a força do amor sobre a fragilidade humana. No entanto, o ser humano deve preservar-se e não se deixar levar pelas inquietudes do amor.
A terceira estrofe é um reflexo das próprias inquietudes, o caos interno da alma romântica, que se debate diante da fugacidade, da efemeridade, da instabilidade, das carências, desejos e vontades. È uma estrofe ansiosa em cujo conteúdo revela-se o tempo que passou.
O tempo avança, mas o eu de Carlos permanece em uma “sublimação de recalques”, excluindo da consciência idéias, sentimentos e desejos que o eu não admite, mas que fazem parte da vida psíquica, suscitando distúrbios. A idéia do recalque sublimado tem a ver com a alma telúrica descrita na estrofe anterior, pois a palavra “recalque” também pode significar, no âmbito da engenharia civil, um rebaixamento da terra ou da parede após a construção de uma obra.
Trazendo essa conotação para o universo simbólico da Literatura, é como se a alma de Carlos fosse construída e depois destruída. Esse processo inverso da construção de seu próprio eu lhe é destrutivo, mas sua dimensão construtora lhe é revelada no discurso do eu do poema. Nessa mesma estrofe, o caos é representado pelo “barulho inefável”, pelas “rezas” e “santos que se persignam”, simbolizando a limitação humana diante das potências do amor.
O poeta busca no sobrenatural a ajuda para ordenar seu caos interno. Os santos que se persignam também comportam os recalques de que o poeta fala acima. Na cultura popular, o ato de persignar-se é uma forma de expulsar o mal. O eu do poeta desdobra-se em santos que se persignam para expulsar de sua própria consciência as conseqüências do amor.
As “vitrolas” e os “anúncios do melhor sabão” podem ser lidos como os reflexos da reprodução (vitrola) de valores capitalistas herdados da sociedade consumista (anúncios) do século XX e que também ressoam nesse caos interno, influenciando de alguma forma no estado de espírito do poeta. Esses “barulhos” aparecem no poema como uma inutilidade (“ninguém sabe de quê, / pra quê”).
A estrofe seguinte é a proteção paternal do eu do poema sobre o eu do poeta, a imagem desta proteção é o eu do poema vendo o poeta caminhar “melancólico e vertical”.
A idéia da verticalidade é significativa haja vista a simbologia que perpassa sua vertente oposta, a horizontalidade no universo do amor. A horizontalidade no amor é símbolo dúbio de satisfação, descanso, prazer, alegria, erotismo, sensualidade e realização. Mas também de queda, dor, tristeza, depressão, descontentamento e cansaço emocional. A sublimação de tudo isso, da total ausência de horizontalidade no amor, é a verticalidade, é o homem de pé, erguido como uma palmeira, caminhando de tal modo que “ninguém sabe nem saberá”. |
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09/08/2007 às 16h30
O Primo Basílio: ler o filme ou ver o livro? |
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Minha intenção é escrever sobre 'O Primo Basílio' – romance do século XIX, de Eça de Queirós. Mas dei uma pesquisada e vi que na internet o que não falta é coisa sobre este bendito primo, principalmente depois que Marisa Monte usou um trecho do romance para ilustrar uma de suas canções, façanha já comentada no artigo LITERATURA E ORGASMO.
Decidi, então, escrever um pouco sobre a transposição da linguagem literária para a linguagem imagética, haja vista não ser o filme a primeira vez em que 'O Primo Basílio' passa por essa adaptação, pois já houve uma minissérie da TV Globo, também baseada no famoso romance queirosiano, em 1988. Aliás, esta minissérie comemora 19 anos hoje (9 de agosto).
Luísa e Jorge têm três anos de casados e moram em Lisboa. Ele é engenheiro e trabalha num ministério. Ela adora ler romances, o que a influencia a ser sonhadora. O casal acredita na felicidade tal qual fora pintada pelos poetas românticos: um amor, um lar, uma família! E planejam ter um filho, mas Jorge viaja a trabalho para o Alentejo, a 130 km de Lisboa.
Enquanto Jorge está fora, Luísa reencontra Basílio, um primo que havia sido seu primeiro amor e que a abandonara há muito tempo. Ao rever a prima, Basílio pretende usá-la para passar o tempo enquanto fica na cidade até cumprir suas obrigações de trabalho. Luísa cede aos impulsos de Basílio, que a seduz tornando-se uma espécie de narrador-personagem de aventuras amorosas e, de certa maneira, fazendo-a sentir-se como uma personagem de romances. Começa assim uma história tensa, de mexericos e chantagens que giram em torno deste adultério.
Juliana, a criada de Luísa, representa uma categoria social desprestigiada e tem, nas cartas trocadas entre Basílio e Luísa, o instrumento de que necessita para executar sua vingança contra todas as patroas. Lançando mão da chantagem, Juliana obriga Luísa a servir de empregada em seu lugar.
Basílio abandona Luísa depois de haver lhe prometido levá-la para Paris. Jorge chega e descobre que Luísa é quem está fazendo todo o serviço de Juliana e demite a criada. Mas a chantagem continua. Juliana quer extorquir dinheiro de Luísa. Ela reza, joga na loteria e tenta prostituir-se para um banqueiro a fim de conseguir o dinheiro da chantagem, mas acaba desabafando com Sebastião (amigo de seu marido). É ele quem consegue recuperar as cartas que Juliana usa para chantagear Luísa. Juliana morre de colapso.
Basílio escreve a Luísa, mas a carta vai parar nas mãos de Jorge, que lê tudo e fica dividido entre matar ou perdoar a esposa, mas esta adoece, ao saber que Jorge descobriu tudo, e acaba morrendo.
Os romances realistas de Eça de Queirós sempre desbancam o romantismo, induzindo o leitor a perder a fé no amor romântico. Ele sempre ridiculariza aquilo que fazemos motivados por este tipo de amor. Em 'O Primo Basílio', esta ridicularização aparece através da ironia que perpassa o necrológio sobre as virtudes de Luísa, feito pelo Conselheiro Acácio, representando o convencionalismo da sociedade.
A volta de Basílio – que, ao tomar conhecimento da morte da prima, lamenta-se com um amigo por não ter trazido Alphonsine, sua amante francesa – é outro exemplo dessa ridicularização.
Há quem prefira assistir ao filme porque a linguagem imagética é bem mais fácil de ser apreendida. No entanto, uma adaptação de obra literária cuja origem é a linguagem verbal escrita sempre implica uma perda da literariedade. Sem falar que uma adaptação inclui mudanças estruturais nos componentes da narrativa.
Por exemplo, se o romance de Eça ambienta-se em Lisboa do século XIX, o filme de Daniel Filho desenvolve-se em São Paulo, nos anos 50. Isto provoca uma mudança nas falas das personagens, na descrição de cenários e figurinos – e a obra de Eça é muito detalhista quanto a isto – e estas mudanças acabam afetando o enredo da obra.
O que se pode depreender, porém, permanece. O romantismo de Luísa continua sendo combatido, mas o espectador que não leu a obra talvez consiga inferir apenas o mau caratismo de Basílio, ou nem isto... |
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01/08/2007 às 16h29
O Guarani de Alencar na ópera de Carlos Gomes |
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Aproveitando o gancho da estréia de O GUARANI em forma de ópera aqui em Belém, quero hoje comentar esta obra literária de nosso José de Alencar, escritor brasileiro do século XIX que deixou uma herança cultural muito rica.
Mas O GUARANI não é de Carlos Gomes, o operista brasileiro natural de Campinas que morreu em Belém?
É dele mesmo. Mas a ópera O GUARANI, de Carlos Gomes, foi inspirada no romance homônimo de Alencar, publicado primariamente em folhetins de 1857, depois republicado por inúmeras editoras e que hoje se encontra no domínio público e pode ser baixado neste link
Clique aqui
Dizem que O GUARANI foi a obra que fez Alencar atingir a fama. Na verdade, a classificação de Alencar como cânone das letras brasileiras deve-se ao conjunto de sua obra e não unicamente ao GUARANI.
Por causa dos romances de lendas indígenas, José de Alencar foi agregado pela crítica ao movimento do Indianismo, cuja fórmula nacionalista consistia em incorporar a tradição indígena à ficção. Mas apreciar a literatura alencarina unicamente sob este prisma é ignorar a vasta gama de outros tipos de romance, obras teatrais, poesias, crônicas, ensaios e polêmicas literárias, políticas e estudos filológicos desenvolvidos ao longo da carreira literária de Alencar.
O romance O GUARANI tem 54 capítulos divididos em 4 partes. Tem como personagens principais D. Antônio de Mariz, sua mulher D. Lauriana, seus filhos D. Diogo e D. Cecília (Ceci) e sua sobrinha D. Isabel (que na verdade é sua filha), Loredano, Aires Gomes, Alvaro de Sá e o índio Peri.
No Rio de Janeiro de 1560, as tribos dos Aimorés e dos Guaranis estão em conflito.
Ceci é filha do fidalgo português D. Antônio de Mariz que lidera os caçadores de uma colônia portuguesa. O pai de Ceci promete-a em casamento a D. Álvaro, mas Ceci apaixona-se pelo índio Peri, líder da tribo Guarani. Peri, já apaixonado por Ceci, decide ajudar os caçadores contra os Aimorés.
Um hóspede de D. Antônio (Gonzáles) arma uma traição contra seus companheiros pretendendo seqüestrar Ceci, mas Peri descobre tudo a tempo de impedir que isto aconteça.
Ceci, então, vira prisioneira dos Aimorés e torna-se objeto da paixão amorosa do cacique desta tribo. Peri também é aprisionado e o cacique pretende sacrificá-los por saber do amor de um pelo outro. Mas o velho D. Antônio chega a tempo de salvar Peri e Ceci do sacrifício.
Por causa de outra investida traiçoeira de Gonzáles, D. Antônio e Ceci são encarcerados em seu próprio castelo. Peri – ao saber que D. Antônio, numa atitude de desespero, pretende matar a própria filha e depois suicidar-se – vai até o castelo e implora por Ceci. D. Antônio, ao perceber que não havia mais condições de resistir e sensibilizado pela atitude corajosa de Peri, o incumbe de salvar Ceci, após tê-lo batizado como cristão.
Peri e Ceci fogem e vêem de longe a explosão do castelo. Com a morte do pai, que resolveu sacrificar a vida para salvar a da filha, a única pessoa que resta a Ceci é Peri. E a obra articula-se a partir desta devoção de Peri.
Durante dias Peri e Ceci ficam vagando sem destino como caminheiros errantes até serem surprendidos são por um dilúvio. Abrigados no topo de uma palmeira, Ceci desespera-se achando que vão morrer, mas Peri conta-lhe a lenda indígena de Tamandaré.
Segunda a lenda, Tamandaré e sua esposa salvam-se de um dilúvio, abrigando-se na copa de uma palmeira e alimentando-se de seus frutos. Ao término da enchente, Tamandaré e sua esposa descem e povoam a Terra.
As águas sobem, Ceci se despera mais ainda. Mas se você quiser saber se a lenda de Tamandaré se repete na vida dos dois, vá ao Theatro da Paz hoje à noite. |
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Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação. |
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