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29/07/2007 às 14h48
A simbiose amorosa de Nego Joe
 

Desde o livro do Gênesis, na Bíblia, a idéia de que o homem deixará seus pais para se unir a uma mulher e com ela formar um só corpo e uma só carne tem sido o ideal de muita gente na cultura do Ocidente.

Essa mesma idéia tem servido para justificar preconceitos contra homoafetividade, poligamia, relacionamentos extraconjugais e até mesmo para defender a renúncia à privacidade individual em benefício do casamento.

Com essa idéia de união sendo utilizada com tamanha perniciosidade, fica realmente difícil de a gente reconhecer como é bom sermos 'um ser só', não 'um ser só' no sentido de solitário, mas no sentido de formar uma unidade com um outro.

Sabe aquela angústia de sermos 'dois' que a gente sente quando quer ser 'um' com o outro? Pois é, isto se chama simbiose amorosa, não é necessariamente erótica e é uma forma de cooperação e união que precisa ser resgatada urgentemente entre os humanos ou morreremos de inanição afetiva.

Para isso tem contribuído a arte e hoje quero lhes mostrar uma canção chamada 'Um ser só', da Banda Nego Joe. O ritmo é de um reggae não muito diferente dos padrões da música popular de origem jamaicana surgida na década de 1960.

A letra, porém, é um poema, uma trova que me fez lembrar a simplicidade dos cantares d´amor dos trovadores medievais. Aqueles cantares em que se observa o trovador enamorado na vassalagem amorosa, entre imagens que vão da lua ao sol, fazendo dos astros um referencial de luminosidade que metaforiza o objeto das cortes de amor. Uma canção que embala os amores quentes do verão ou a solidão das mangueiras nas ruas ermas de uma Belém em julho.

Um  Ser Só (Clique aqui e escute a canção)
Nego Joe
Composição: Nego

Que bom se você fosse como a lua
Que onde quer que esteja possa enxergar.
Ou quem sabe fosse como o Sol
Que me aquece o peito aonde quer que eu vá.
Teu beijo poderia ser o infinito
E ainda mais bonito nunca se acabar. 
A tua beleza como a das estrelas,
Só que permanece quando a noite vai. 
E deixa a mesma tristeza
Em saber que não és minha, 
Que não te posso alcançar. 
Vem a chuva molha o meu rosto,
Provo do mel me lembro do seu gosto,
Olho da janela vejo um jardim.
Vou à praia, a tarde cai – que maravilha!
O vento traz o teu perfume de baunilha. 
É como se o mar quebrasse só pra mim.
Vou me emaranhar por entre seus cabelos
Dormir contigo afastar seus pesadelos.
E quando o Sol chegar seremos um, um Ser só, 
Um Ser só... 

 
O eu deseja que o objeto de seu amor seja como a lua para que possa enxergá-la de qualquer lugar. A lua, por sua vez, é um astro que a tudo ilumina tal qual a pessoa que se ama.

Em seguida, outro astro luminoso é evocado para metaforizar o objeto de amor, dessa vez com o destaque para as propriedades térmicas do amor a aquecer o coração. O beijo compara-se ao infinito e a beleza às estrelas, mas com uma diferença: essa beleza permanece quando a noite vai.

A comparação do objeto de amor com astros ganha coerência quando se observa a verticalidade, a virtualidade e o platonismo da relação ('E deixa a mesma tristeza / Em saber que não és minha / Que não te posso alcançar').

A segunda estrofe da canção produz uma tensão literária porque, após afirmar o amor como inacessível, o eu desdobra-se numa suposta projeção imagética tão intensa que não se sabe mais da concretude desse amor.

O tato é evocado para suprir a necessidade do toque e aliviar o fogo daí derivado ('Vem a chuva, molha o meu rosto / Vou me emaranhar por entre os seus cabelos). O paladar é evocado para ativar a memória ('Provo do mel e lembro do teu gosto'). A visão é evocada para transformar a realidade ('Olho da janela e vejo um jardim'). O olfato é evocado para completar a sinestesia ('O vento traz o teu perfume de baunilha'). E a audição fica por conta das batidas secundárias fortes e do uso acentuado do contrabaixo a sugerir a dimensão erótica da simbiose amorosa de 'Um ser só'.

Quem sente um amor simbiótico como este, de fato, sente-se como se o mar quebrasse só pra si e sabe que, num amor assim, o que importa é dormir com o outro para afastar seus pesadelos.

A Banda Nego Joe é de Santa Catarina. Quem quiser saber mais sobre a Banda pode acessar o site http://www.negojoe.com.br/. Lá dá pra saber tudo, inclusive baixar músicas, vídeos, letras, cifras e saber como contratar shows e etc.

 

 
 
 
26/07/2007 às 09h10
Qual de vós não teve na vida, assim como eu, uma avó?
 


Desde Monteiro Lobato, que criou D. Benta, a avó que todos gostaríamos de ter, o papel social da avó ganhou projeção na Literatura deste país.

Hoje se comemora o dia das avós. Aliás, dos avós, na verdade, porque a tradição católica comemora, no dia 26 de julho, o dia de Santa Ana e de São Joaquim, pais de Maria e, portanto, avós de Jesus Cristo.

Conta o apócrifo que, no século I a. C., Ana e Joaquim viviam em Nazaré sem ter filhos, mas sempre pediam que Deus lhes enviasse uma criança. Embora de idade avançada, Ana engravidara e eles tiveram uma menina a quem chamaram Maria. Santa Ana morreu quando Maria tinha apenas 3 anos. Por causa dessa história, Santa Ana é considerada a padroeira das mulheres grávidas e das que desejam ter filhos.

Por isso hoje eu quero dedicar este post a todas os avós do mundo, especialmente à memória de minha avó materna, a única que conheci na vida, Cirena Lobo Bentes, que hoje está no Céu.

O poeta português Antônio Nobre, no conhecido poema 'Viagens na minha terra', usa estes versos para referir-se à paisagem de Portugal: 'ó paisagem etérea e doce, / Depois do Ventre que me trouxe / A ti devo eu tudo o que sou!'. Não vejo por que não adaptar esses versos aos avós, a quem muitos devem o que são antes mesmo de deverem ao ventre que lhes trouxe.

É ainda nos versos de 'Viagens na minha terra' que Antônio Nobre descreve a delícia de se ter uma avó em infância. Leiam, reflitam e comentem:

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeãos, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jesus! quantos abraços!
— Qu'é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Belém!

— E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido...
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! e a água, Jesus!
E os lençóis! rico cheiro a linho!
— Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!

E eu deitava-me, mudo e triste.
(— Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim...
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: — Apaga a luz! — Que rala!
Descansa, minha Avó, que sim!

Ora, às ocultas, eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão...
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)

E continuava, lendo, lendo...
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
- Bff!... e dormia com a idéia
Naquela tia Dorotéia,
De que fala Júlio Dinis.

Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só...
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

 
 
 
18/07/2007 às 17h53
Premissas para uma literatura do amor no século XXI a partir de um poema romântico do século XIX
 


Na semana passada, refletimos sobre os (des)encontros da vida a partir da poesia de Carlos Drummond de Andrade. Tenho apresentado aqui reflexões sobre as crenças do amor no Ocidente. Neste contexto, lembro-me de um poema de Almeida Garrett, introdutor do Romantismo em Portugal, em que o poeta nos adverte – pela negação “Não te amo” – para as diferenças entre aquilo que se acredita a respeito do amor e aquilo que, de fato, sente-se ao amar:

NÃO TE AMO

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
     E eu n'alma - tenho a calma,
     A calma - do jazigo.
     Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
     E a vida - nem sentida
     A trago eu já comigo.
     Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
     De um querer bruto e fero
     Que o sangue me devora,
     Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
     Quem ama a aziaga estrela
     Que lhe luz na má hora
     Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
     De mau feitiço azado
     Este indigno furor.
     Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
     Que de mim tenho espanto,
     De ti medo e terror...
     Mas amar!... não te amo, não.

Nesse poema temos duas visões do amor: uma ideológica, outra empírica, ou seja, aquela que nasce da experiência.

Na visão ideológica, o 'amar' vem da alma (do latim anima), sendo um princípio vital incompatível com a sensação calma de um jazigo, onde habita um corpo morto, descrito pelo eu lírico, ao falar de sua experiência de amar.

O eu poético compara, ao longo do poema, as crenças comuns sobre o amor e aquilo que ele sente. Suas sensações constituem a outra visão – não ideológica, mas empírica – segundo a qual o amor não faz sentir a vida (apesar de se acreditar que 'o amor é vida'), mas concentra-se no coração de tal modo que 'a vida – nem sentida a trago eu já comigo'.

Segundo a visão ideológica, o amor é um sentimento que se nutre por quem é amável segundo as convenções de beleza (“És bela e eu não te amo, ó bela”); o objeto do amor não pode ser causa de perdição ou de desgraça (“Quem ama a aziaga estrela que lhe luz na má hora da sua perdição?”); o amor não é forçado; não tem nada a ver com feitiço, nem com furor; não provoca espanto, medo, terror, infâmia... Enfim, não tem nada a ver com o que o eu lírico diz sentir.

Por isso, ele concentra as sensações provocadas por sua paixão amorosa na vontade vaidosa de possuir (“quero-te e só te quero”). O verbo “querer” recorre três vezes, ao longo do poema, e em todas com sujeito e objeto bem determinados. A experiência de amar aqui descrita é refutada como amor pelo próprio eu lírico por não se enquadrar nos padrões de amor então vigentes, legitimados e socialmente difundidos.

A criação literária cujo tema é o amor segue os mesmos padrões da leitura de textos literários sobre este tema, gerando um circuito fechado em torno do amor idealizado que sempre se reproduz.

Essa reprodução banaliza o amor não apenas como mote de criação literária, mas como experiência comunicável. Neste sentido, torna-se urgente uma outra forma de abordagem desses textos, em que pese a valorização da experiência, ao lado da contextualização histórica, do estilo de época ou do próprio autor, como fatores reguladores da produção de sentidos desses textos.

Devemos valorizar também as diversas maneiras de como os temas desenvolvidos na arte literária são vivenciados na experiência individual do leitor. As variáveis que então se revelarão paralelas a essa dimensão ideológica da literatura serão muito mais criação do que mera reprodução de abordagens e de leituras e, neste sentido, poderemos começar a pensar numa literatura do século XXI.

 
 
 
10/07/2007 às 16h15
Os desencontros da vida na quadrilha de Drummond
 


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes,
que não tinha entrado na história.


No poema “Quadrilha” Drummond constrói uma cadeia relacional que requer uma tensão entre leitor e poema para ser compreendida. Nesta cadeia relacional perpassa uma marca do sentimento de amar no Ocidente, que já fora lembrada pelo poeta Vinícius de Moraes, contemporâneo de Drummond, na célebre frase: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

São esses desencontros que marcam o amor nas sociedades ocidentais, sobretudo à medida que a era da imagem, na história da comunicação humana, desestabiliza a hegemonia da cultura letrada e congrega-se a várias outras formas de linguagem para, com a ajuda do avanço tecnológico, formar a massa.

Drummond não viveu a mediação estrutural do conhecimento e tampouco conheceu a fragmentação da informação e as facilidades de alcance da era digital. Mas sua poesia tem valor prognóstico quando, em “Quadrilha”, nos sugere uma reflexão acerca dos desencontros provocados pela cultura de massa, que impõe a ideologia dominante, largamente difundida na cibercultura.

João amava Teresa e foi para os EUA, enquanto ela foi para o convento. Este desencontro acontece porque Teresa amava Raimundo que morreu de desastre, numa clara referência à fugacidade da vida, ao aspecto efêmero dos sentimentos determinado pelas vicissitudes.
Raimundo amava Maria que ficou para tia, pois seu amor Joaquim suicidou-se, mas se ele não houvesse cometido suicídio, Maria provavelmente teria ficado para tia do mesmo jeito porque Joaquim amava Lili, que foi a única que teve um “final feliz” porque se casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Uma reflexão sobre as imposições ideológicas segundo as quais as mulheres têm que se casarem para não ficarem para tia. Todos buscando o casamento, a sua “alma gêmea, a outra metade da laranja ou a tampa da sua panela”, reproduzindo nesses provérbios populares as ideologias da cultura dominante, buscando os amáveis, de acordo com os padrões de troca do Capitalismo. Os personagens de “Quadrilha” têm nomes comuns, bem populares, e são, na verdade, a referência simbólica a cada cidadão brasileiro.

O casamento, símbolo de união “definitiva” aparece, ao final do poema drummondiano, não como um “final feliz”, e sim como uma reflexão sobre o porquê de cada personagem não haver ficado com o objeto de seu amor. O universo relacional entre seres humanos é demasiadamente complexo e são muitas as variáveis que sugerem questionamentos aos padrões sociais que pretendem homogeneizar os relacionamentos, segundo padrões mercantilistas.

 
 
 
03/07/2007 às 16h03
No jardim da vida está a nossa herança
 


O novo álbum de Vanessa Mata chegou aos meus ouvidos num momento em que eu não poderia deixar passar a canção 'Minha herança: uma flor' sem escrever nada sobre esta que é uma das mais poéticas letras de Vanessa. Lembro-me de quando a conheci pessoalmente em Dezembro de 2005. Prometi-lhe que transformaria a poesia de seu trabalho em recurso didático e agora tomo a letra desta música para propor uma reflexão sobre os 'nãos' que a vida nos dá:

Achei você no meu jardim
Entristecido
Coração partido
Bichinho arredio

Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre

A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho em uma árvore ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranqüilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si

E hoje nos lembramos
Sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza estava juntando
Você e eu

Achei você no meu jardim

O objeto amado aparece comparado a um 'bichinho arredio' – que se afasta do trato ou do convívio social – de coração partido, cheio de dores, mágoas, doenças, sem esperanças, sem perseverança, sem amor próprio já de tão sofrido... bem ao modelo de como a gente se sente depois de ter levado tanta 'porrada' da vida. Este é o perfil de quem passou anos da sua vida em busca da felicidade e tudo o que alcançou foi o cansaço e a certeza de que a felicidade, se existe, consiste em não crer em felicidade.

Ao mesmo tempo, o eu lírico compara-se a 'um bandido cheio de vícios'. Os nossos vícios, tendências egoístas e condicionamentos que não nos permitem cuidar do outro, observá-lo para regar com paciência, sair podando as dores, as mágoas, as doenças, limpando o terreno, mandando embora as folhas secas...

Lembro-me agora do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa e de sua fórmula para alcançar um amor ideal: 'Um bom homem você encontra seguindo a tática pela qual se encontra uma boa empregada: experimente vários, escolha dentre estes o menos pior, e este você vai ter de educar com paciência. Assim, talvez, você tenha o homem que quer'. Lógico que este conselho era para as mulheres, mas vale para todo mundo, independentemente de sexo ou de orientação sexual. Este 'educar com paciência' que o especialista sugere é o que fez o eu lírico de Vanessa nesta canção. É a 'herança', a 'flor'.

Mário Quintana nos ensina que 'O segredo é não correr atrás das borboletas... / É cuidar do jardim para que elas venham até você'.

Como um entristecido bichinho arredio virá a um jardim descuidado de si mesmo? Fechado em seu próprio mundinho?

Amar dá trabalho! Por isso o eu lírico de Vanessa diz: 'Eu trabalhei / Fiz tudo, todo o meu destino'. Porque amar é construir nosso próprio destino. Como? Olha o que fez o eu da canção: 'Eu dividi, ensinei de pouquinho /Gostar de si, ter esperança e persistência / Sempre'. É isto! 'Ensinar' requer 'paciência' para 'dividir'. É mostrar ao outro que, ao contrário do que dizem 'os foras que a vida nos deu', o amor ao próximo (ou ao distante) é uma extensão do nosso amor próprio e que, amando-nos, aprendemos a 'ter esperança e persistência sempre'. Quem não ambiciona fazer um bem assim? No entanto, pensamos logo em que nos façam um tal bem.

Finalmente, quero destacar um querido pensamento meu: 'O amor que você dá sempre volta pra você. Ainda que não volte por meio das pessoas a quem você deu. Mas volta'. Como na canção de Vanessa em que o amor dado aos 'foras' retorna em forma de 'uma flor com um sino, uma canção'. O sino é uma campainha cuja utilidade é ressoar. Este sino, no entando, é uma flor, um vegetal de propriedades ornamentais e fecundas – olha que lindo! Quem não quer ter um amor assim como herança? Um amor que orna e fecunda, ao mesmo tempo, e que ressoa...

O amor é também metaforizado em sonho numa árvore ou numa pedra. Na árvore cuja seiva traz vida, fertilidade, produção, frutos... Na pedra que serve de base sólida, alicerce inabalável...

Roguemos a Deus por um amor assim como herança e que venha o dia em que lembraremos sem tristeza os foras que a vida nos deu...

 
 
Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação.
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