Esta semana começou com o dia nacional da literatura infanto-juvenil, instituído através da lei 10.402/02, em homenagem a Monteiro Lobato, que nasceu em 18/04/1882. Vários cânones da literatura universal nasceram ou morreram em 23 de abril (Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Vladimir Nabokov, para citar apenas alguns), razão pela qual A UNESCO instituiu, em 1996, o dia 23 de abril como o dia mundial do livro, comemorado em aproximadamente 100 países através de vasta mobilização de uma rede internacional de editores, livreiros, bibliotecários, escritores, tradutores, críticos e professores de literatura.
Penso ser conveniente aproveitar essas datas alusivas ao livro e à prática da leitura, para propor as seguintes questões: Como é que o brasileiro vê o livro?
Há um autor brasileiro, de cujo nome não me lembro agora, que escreveu uma crônica em que uma criança frustra suas expectativas de escritor ao pegar um livro para usá-lo como degrau a fim de alcançar o botão da TV. Isso ilustra o modo de como os brasileiros em geral tratam o livro, como uma coisa, um objeto que tem peso e tamanho, um corpo, uma porção limitada de matéria, no sentido físico do termo, e que apenas ocupa lugar no espaço, servindo como objeto de decoração ou literalmente de “degrau”.
O site cultural Resenhando publicou uma crônica de Marcelino Rodriguez sobre a importância da leitura para o crescimento cultural dos brasileiros, que passo a reproduzir agora como proposta de reflexão sobre o crime doloso cometido por gestores escolares, professores, técnicos em educação, orientadores, supervisores, coordenadores, monitores e todo recurso humano (ou seria desumano?) envolvido num processo que deveria ser educacional, mas que a realidade mostra ser criminoso: “Dentre as tantas constatações que já fiz sobre a deficiência da educação no Brasil, a mais dramática é que o brasileiro não tem noção alguma da essência do livro. Ele sabe apenas que o livro é um objeto. Ele não vê o livro como uma parte do espírito da vida, e uma das mais importantes, sem dúvida. O homem sem conhecimento e sem uma mínima cultura sabe pouco, pensa pouco, produz pouco e desperdiça muito. O livro na verdade é a escova de dente do espírito, se me permitem a metáfora inusitada.
Como escritor, evidente que essa ignorância consentida e essa indiferença em relação ao livro doem mais. Pude sentir na pele o desconhecimento da importância do livro por parte da população. Para o brasileiro médio, um livro não é algo diferente de um artesanato de madeira ou de um porta-cd. É apenas um objeto sem substância viva de vida para ele. Algo descartável. Quem conhece pouco, valoriza pouco.
O que está contido nos livros não são apenas palavras, mas espírito. O que muito me estranha é que mesmo muitos intelectuais não tocam no assunto. O que deve ser feito para se mudar essa cegueira absurda?
Em primeiro lugar, denunciar o crime. O país é um dos mais atrasados do mundo no quesito leitura, que bem poderia passar a ser uma matéria escolar. Por que não, se isso é barato e necessário? Com investimento na leitura na base educacional, garanto que, em duas décadas, a economia do país e a qualidade de vida vão melhorar em, no mínimo, trinta por cento.
Teremos pessoas mais qualificadas, com senso crítico, consciência, imaginação, maior empatia humana, mais responsabilidade e menos preguiça mental. Com uma população nutrida de livros, a vida aqui deixará de ser uma mera luta pela sobrevivência para passar a ser alguma coisa mais interessante para todos. Como diziam tantos sábios, só há um bem, o conhecimento; só há um mal, a ignorância. Uma população que não lê é uma população de ignorantes.”
Em resposta ao texto de Marcelino, gostaria de partilhar com os leitores alguns fatos constatados em escolas públicas e particulares de Belém:
Os alunos da rede pública recebem livros didáticos do MEC e os da particular os compram, mas não os levam para a escola ou porque os professores não exploram os livros como recurso nas aulas ou porque são pesados e difíceis de carregar. Esses mesmos alunos levam celulares, MP10 e câmeras digitais para produzirem vídeos pornôs nos banheiros das escolas.
Ao ouvirem a metáfora inusitada do autor (sim, porque ler... eles não leriam), muitos alunos responderiam que uma escova de dente pesa menos que um livro, pois não seriam capazes de desvendar o sentido de uma metáfora.
O autor refere-se à ignorância consentida, e vocês sabiam que há gestores que recebem propina para mudar a nota de professores? Há gestores que cometem o crime de ameaça velada, assédio moral e constrangimento ilegal contra professores que trabalham direito nessas escolas. O cidadão sente-se obrigado a aderir ao esquema da mediocridade, que se sustenta com um discurso sórdido de “solidariedade” (Precisamos ajudar este aluno, professor!), para não perderem o emprego. E o resultado disso está contemplado nos evidentes produtos da ignorância nacional.
* Marcelino Rodriguez é autor de 'Bom Dia, Espanha', 'A Ilha', 'Café Brasil', 'Mar, Romântico Mar', entre outros. Recebeu o Prêmio Pérgula Internacional.
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