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29/04/2007 às 19h05
Divagações de um leitor no Dia do Trabalho |
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A semana começa com lembranças... Dia do trabalho que cai numa terça-feira, e todo mundo enforca a segunda para estender o happy hour da sexta às primeiras horas da quarta.
Leis trabalhistas descumpridas; fiscais que, a um pequeno agrado, se fazem de besta; pessoas exercendo cargos para os quais não têm a menor competência; gente que trabalha pouco pra ganhar muito; gente que trabalha muito pra ganhar pouco e – apesar da lei áurea, que também data de maio (1888) – gente que trabalha para ganhar nada.
Sem falar nos aprovados em concursos públicos, que parecem o Pedro Pedreiro da música do Chico, até terminar a validade dos certames, porque há políticos (que também não trabalham) que preferem cozinhar concursados em banho-maria a se arriscarem a perder votinhos dos peixinhos que entraram pela janela no serviço público (muitos dos quais também não trabalham).
Sem falar também noutras conseqüências deste quadro desolador da dinâmica trabalhista deste país que chora a morte de um Ayrton Senna, falecido em 01 de maio de 1994, mas não chora a morte de quem não pôde ser ajudado pela fundação beneficente que leva o nome do campeão.
Dia do Trabalho, aniversários dos ministérios da previdência (que prevê o que mesmo?) e do planejamento (que planeja o que mesmo?), morte de Ayrton Senna, nascimento de José de Alencar...
Por falar em Alencar, lembro-me do romance 'Cinco minutos', em cujo enredo um atraso de cinco minutos e uma diferença de uma hora – entre um ônibus perdido e a próxima viagem a Andaraí – significam a distância entre o narrador-personagem e sua felicidade plena, ao lado de sua cara-metade.
O enredo deste romance traz uma fantasia romântica inadmissível(?) nos dias de hoje. Mas sendo do século XIX, de um cânone das letras brasileiras, talvez haja quem não o rejeite como coisa fantasiosa...
Não vou aqui dissertar sobre este romance – que, aliás, é leitura obrigatória do vestibular e, portanto, o que não falta é resumo dele por aí – mas quero chamar a atenção para o fato de que as fantasias românticas, que tanto sucesso fizeram no século XIX, continuam a fazer sucesso ainda hoje, só que agora bem menos desprovidas de arte em seu sentido pleno.
Hoje temos as novelas, os filmes – sobretudo os americanos – e as canções ordinárias como veículos dessa mundividência fantasiosa a respeito do amor e das relações humanas. Não que tais produções não nasçam de certo 'tipo de arte'. Mas, quando a fórmula torna-se recorrente, para a massificação repressora das diferenças relativas aos outros, aí já não podemos mais falar em arte plena, por mais que haja técnicas e tecnologias na produção e disseminação deste 'tipo de arte'.
A literatura – tipográfica mesmo – pode trazer inúmeros benefícios a quem ousa vencer a preguiça. Um exemplo de um destes benefícios é a reflexão sobre a outra face do dia do trabalho. Compare os discursos e a conotação das celebrações deste dia com a práxis trabalhista brasileira e você verá que o dia 01 de maio não passa de um pretexto para que o trabalhador brasileiro – crendo fazer sua própria esbórnia – continue a fazer a esbórnia do patrão, mesmo fora do batente. Talvez por isso o compositor maranhense Zeca Baleiro tenha despedido o seu patrão no álbum Pet Shop Mundo Cão (2002), alegando que 'ele roubava o que eu mais valia', numa proposital ambigüidade com a 'mais-valia' marxista.
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23/04/2007 às 07h43
A porção poeta calhorda (?) de Luly Mendonça |
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Para entender o post desta semana, leia primeiro o poema de Luly Mendonça, minha colega de blog aqui no Portal ORM.
Ritmo Quantas notas compus em meu íntimo Sem nem sequer ser cantador, compositor, prosador ou repentista.
O coração, que sabe pulsar, se fez maestro Silenciosamente te fazendo canção. Sussurrei em teu ouvido Blues, jazz, bossa nova, baião Timidamente, descompassadamente... Sem saber que eras tu Um grito agudo, visceral, rock’n’roll, metal.
Te fiz serenata Suave cantiga, singela, pacata Pus rimas, sonetos, tercetos, Virou bloco, carnaval E tu te desfizeste em um rasgante refrão Ensurdecedor, elétrico, Tomando-me o equilíbrio deste samba canção. E foi assim, que destoaste dos acordes que te fiz E me tocaste desritmado, exatamente como eu quis.
As notas musicais são 'letras' de sons universais. Assim como os grafemas representam os fonemas de uma Língua, as notas configuram sons que têm sentido em qualquer Língua, pois música é música em qualquer lugar do tempo, assim como amor é amor em qualquer lugar do espaço.
Por isso, todo mundo que ama transforma seu próprio íntimo em instrumento e seu coração em maestro 'Sem nem sequer ser cantador, compositor, prosador ou repentista'. Se fôssemos, talvez não nos arriscássemos tanto aos descompassos destoantes e desritmados, em sentido bem alheio ao final feliz do poema de Luly.
O coração-maestro só faz besteira. Silencioso, ninguém entende seus sinais – que nos confundem da cabeça aos pés – enquanto devoramos o outro que, então, é a canção. E fazemos exatamente o que fez o eu lírico do 'Ritmo' de Luly. Sussurramos estilos consagrados (blues, jazz, bossa nova, baião) ao ouvido do outro, sem reconhecer as rebeldias de seu Rock-metal, seus 'gritos viscerais'.
O que será que aconteceria se, ao invés de se deixar levar pela maestria do coração, a gente colocasse a razão como batuta deste maestro? Talvez entendêssemos que o amor, como a música e toda arte, requer estudo, preparo, iniciação e experiência. Ao longo deste caminho, vamos fazendo serenatas, sonetando cantigas e cantigando sonetos, passando inclusive pelo ritmo frenético e repetitivo dos carnavais como um refrão, até chegarmos à perfeição descrita por São Paulo em seu hino ao amor, na I epístola aos Coríntios: 'Quando chegar o Perfeito, o imperfeito desaparecerá' (13,10).
Luly, você pode não ter tido a pretensão de criar um texto poético no sentido literário do termo, ou pode não considerar-se poeta, mas seu poema traz uma metáfora (do ritmo) em gradação, cuja cadência evolui gerando uma expectativa que, ao final, surpreende.
Pois o verso 'exatamente como eu quis' quebra a expectativa de que o outro desfazer-se em um 'rasgante refrão...' seja negativamente o desequilíbrio descrito em 'Tomando-me o equilíbrio deste samba canção' – por sinal, se considerarmos que isto é um tipo de cueca, tem aí uma prévia da surpresa ao leitor no final – Que mulher não gostaria de ser desritmada desta maneira?
E depois, querida Luly, tem tanto calhorda que se diz poeta, inclusive em academias literárias... Aliás, calhorda todo mundo sabe o que é, mas o que será um poeta, hein? |
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19/04/2007 às 13h45
Ícones |
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Não queria iniciar o post desta semana escrevendo sobre como me sinto, até porque isto aqui é um blog e não um divã. Mas tenho experimentado um desespero relativo às mudanças mais do que necessárias no pensar do século XXI.
Proponho a leitura de 'ícones', da paraense Maria Lídia, como se música e poesia ainda não fossem autônomas, para que vocês entendam a poesia dela e o meu desespero: A serpente, a maçã, Seculares símbolos da mácula da sanha de satã Com o afã de atenuar a fraqueza humana
Antes da cruz de Jesus Houve Ave romana que domani americana águia seria A guia do poder a prevalecer Sobre egípcios, hebreus, gregos, macedônios, Ontem e hoje descendentes babilônios Bisonhos serviçais, como certos animais.
Depois da cruz de Jesus Cada ação insana cometida pela gana adormecida no homem, ser bruto, Aquém do de neanderthal Teve um ícone, um sinal, Tipo aquela herética suástica, patética, holocáustica, Estranha aranha vil, que a tantos sucumbiu.
A serpente, a maçã e satã, Em súmula oráculo do homem, criador e criatura pagã, Cuja filosofia vã É manter a alma pura e sã Atribuindo culpas a satã, à serpente e à maçã.
A meus colegas da academia aviso: não cabem aqui as teorias de Barthes, Hegel, Peirce, Jung, Wallon ou Saussure sobre signo, sinal, índice, ícone, símbolo, alegoria... Razão pela qual são tratados aqui como categorias indistintas.
Maria Lídia refere-se à cruz como o marco entre antigos e novos símbolos que, segundo Jung, há 'como representação de conceitos' porque há 'coisas fora do nosso alcance'.
Uma das coisas que estão fora do nosso alcance é o homem como 'ser bruto, aquém do de neanderthal' (abaixo do homem primitivo). A 'ação insana cometida pela gana adormecida' é representada sempre por 'um ícone, um sinal', mas quais seriam os ícones ou sinais de hoje? Homicídios, preconceito, discriminação, injustiça, pactos de mediocridade e de poder, miséria, guerra e todas as mazelas do mundo... O que representariam?
Se nós somos sujeitos da história, por que 'a serpente, a maçã e satã' continuam em pleno século XXI como 'costas largas' dessa mesma história, que só 'o homem, criador e criatura pagã' faz?
A serpente e a maçã são símbolos da ira de satã e eufemismos da fraqueza humana. Quais seriam os atenuantes das fraquezas nas instituições? Cala a boca, Helder, que – mesmo criadas por homens – instituições não têm fraquezas. Certo estava o poeta – que não era profeta – ao dizer que 'a América sempre precisará de ridículos tiranos'.
A suástica é o símbolo da pretensa superioridade da raça ariana – defendida por Adolf Hitler (1889-1945) – e que, na letra de 'ícones', aparece como heresia patética do holocausto que (era?) cometido contra as minorias. Parece que a 'estranha aranha vil' espalhou-se pelo mundo e continua a sucumbir...
Antes e depois do Cristo, que veio ao mundo para pregar o amor contra o poder e revelar que este amor pode e deve ser levado às últimas conseqüências, sempre tivemos símbolos a ser interpretados. O problema é que não nos ensinaram a fazer isto a parece que continuam querendo que – quer de Roma, quer da América do Norte ou de Belém mesmo – sejamos 'bisonhos serviçais'. Vai de você deixar que lhe tratem 'como certos animais'. Você é Ave, Águia e não 'a guia'! |
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16/04/2007 às 07h32
O amor segundo Camões |
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'Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudanças' – diz o poeta português Luís Vaz de Camões que, segundo curiosos, teria nascido em 4 de Fevereiro de 1524 ou 1525. Não se sabe ao certo, mas biografia de autor literário nunca foi importante.
O que interessa é que, apesar das mudanças do mundo, das novidades sem esperança, ficam as saudades do bem. E o bem se eterniza por si só, sendo reconhecido apenas por quem é do bem. Refiro-me agora ao poeta brasileiro Renato Russo, que em 1989 publicou a canção 'Monte Castelo', uma versão musical da I carta de São Paulo aos Coríntios e do seguinte soneto de Camões:
Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar se de contente; É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Neste soneto, Camões define o amor baseado na contradição e explora duas figuras de linguagem: antítese e paradoxo. Como o objetivo aqui não é dar aula de teoria literária, se você ficar curioso de saber o que é soneto, antítese ou paradoxo, pergunte no comentário que eu respondo com prazer.
O que é o amor segundo essas 'definições' do poeta? Será que as coisas que vivemos no amor são exemplos dessas definições?
O fogo é algo que não se esconde, pois é visto e sentido, mas para o poeta 'Amor é fogo que arde sem se ver', ou seja, apenas o sentimos, mas não pelos sentidos. Nossos sentidos são limitados em relação às sensações ardentes do amor. Por isso, ele é comparado também a uma ferida cuja dor não é sentida ('É dor que desatina sem doer').
Lembro aqui daquelas pessoas que amam, sofrem, mas continuam amando. Lembro-me também de outro poeta português, Almeida Garrett que, no século XIX, escreveu: 'O excesso do gozo é dor', alegando que 'não há ser bastante para este gozar sem fim', legitimando assim o 'contentamento descontente', o fato de que nunca estamos satisfeitos no amor, mesmo que sejamos correspondidos, pois o amor 'é nunca contentar-se de contente'.
Outro aspecto do amor é o desapego próprio deste sentimento: 'É um não querer mais que bem querer / É um cuidar que ganha em se perder'. De fato, quem ama de verdade não quer nada além do bem do outro, mesmo que o bem do outro seja que você fique longe dele. No amor verdadeiro, você perde para ganhar ou ganha ao perder.
O amor é individual e acarreta a solidão, quer seja por necessidades não supridas, quer seja porque às vezes é preciso ficar só e, assim, as pessoas sentem-se num 'andar solitário entre a gente'.
No amor há liberdade e livremente se quer 'estar preso'.
O amor é servir ao vencedor, mas só há vencedor quando há uma batalha ou disputa. Amar, então, é colocar-se a serviço de quem vence esta competição. Não está dito que este alguém deve ser o outro. Às vezes, você vence e precisa colocar-se a serviço de si mesmo. Mas o fogo torna-se visível e a dor desatina sem dó nem piedade quando o vencedor é nosso rival. Assim, 'servir a quem vence' é f... deixa pra lá!
Amar é ser leal com quem nos mata. Jesus Cristo já havia dito - contra a lei do 'olho por olho, dente por dente' - que é preciso 'dar a outra face', perdoar e dar ao outro a oportunidade de ele não nos magoar mais, independentemente do risco que corremos de sermos magoados novamente. Isto é ser leal com quem nos mata.
Camões encerra com uma pergunta que, ordenada diretamente, fica assim: 'Mas como o favor do amor pode causar amizade nos corações humanos, se o mesmo amor é tão contrário a si?'
Como posso me tornar amigo de quem amo, se o amor me cega, neutraliza meus sentidos, não me satisfaz; se eu quero mais que o bem do outro, quero o meu bem que creio ser o outro; se mesmo acompanhado me sinto só; se quero sempre ganhar sem nunca perder e não sirvo a quem vence; se estou preso contra minha vontade; se minha lealdade só se manifesta como retribuição à lealdade alheia, não poderei amar ninguém, nem como amigo.
Digam agora se Camões não será eternamente atual? |
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10/04/2007 às 10h57
Comentário do Júlio |
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Em meu post de estréia, eu escrevi que a idéia de uma coluna literária em formato de blog seria muito mais do que a relação entre leitores e obras intermediados por um blogueiro. Pra mim, a Literatura é vida e a apreciação literária só faz sentido quando atrelada à vida. Recebi este comentário do cantor Júlio Freitas por e-mail e o publico agora para dividir com vocês a alegria de ver a Literatura e a vida em comunhão, em plena época de Páscoa.
'Caro Helder,
Não, não tenho motivos a pedir à fonte “Não me leves para o mar”. Eu surfaria nas corredeiras, ansioso pela chegada do mar. Que flor mais tola! Passar a vida inteira plantada, sem dar uma fugidinha pra se aventurar?!...Bem, deixando o sarcasmo de lado, a associação entre Páscoa e transformação, Helder, é pertinente, e eu adoro a estética simbolista do poema. Mas há duas coisas que preciso considerar.
Primeiro: no meu passado católico os padres e professores sempre abordaram a Páscoa com foco na transformação para melhor – “Nem a morte vence Cristo”, “Páscoa é renovação”, etc. E, diga-se de passagem, a imagem bem alegrinha da Páscoa é reforçada pelas campanhas publicitárias. Admito que não acredito mais nem na Igreja Católica, nem no comércio - que, aliás, sempre andaram lado a lado – mas eis minha segunda consideração. Depois que me desvencilhei de alguns dos conceitos artificiais que nos cercam, comecei a compreender mais claramente o lance da transformação de vida. É bem verdade que a estética simbolista e outras semelhantes têm uma beleza que desencadeia um prazer um tanto masoquista, mas que não deixa de ser prazer.
Daí a gente rolar de deleite enquanto as lágrimas rolam pelo rosto ao ouvir “Eu te amo” do Chico (“Ah, se já perdemos a noção da hora, se juntos já jogamos tudo fora, me conta agora como hei de partir...”). Mas viver dessa forma é um processo que só resulta num círculo vicioso, na estagnação. A mudança, o desconhecido, o inesperado, são nossos aliados quando aproveitamos a onda pr’um bom surfe. Do contrário, a enxurrada corre à revelia. Isso é um dos aspectos que eu mais adoro, por exemplo, em ser notívago, boêmio: ao início de cada saída, nunca sei o que vai acontecer (“...é febre e amor, e eu quero mais. Tudo o que eu quero – sério! – é todo esse mistério.” – “Charme de mundo”, Marina Lima).
É evidente que, dessa forma, fico exposto ao lado sombrio do mundo. Há um ano eu fui baleado num dos bares mais tradicionais da cidade durante um assalto. Mas essa foi uma fatalidade. Em anos e anos de noite acumulei muito, muito, muito mais experiências maravilhosas. É uma questão de manter o equilíbrio sobre a onda. Depois de passar por uma tragédia dessas, é claro que não dá, por exemplo, pra sair dando caminhadas inocentes às quatro da matina sozinho, mas a noite não perdeu a beleza. Depois de ser sido enganado no meu último namoro, é claro que não dá pra namorar sem desconfiar, mas também não dá pra deixar de amar.
Por isso aprendi a apreciar mais as canções que cantem a alegria de amar, e não as desventuras do amor (“...teu calor alucina, e a pleno rigor domina feito uma coisa que mata de prazer. Deixa ver: se eu não morrer, te quero de novo...” – “Miragem”, Djavan). Definitivamente não vou passar a vida toda plantado no mesmo lugar. E, quanto à Páscoa, em vez das estórias da Igreja Católica, hoje creio muito mais no Jesus que há em mim:
“...A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e CANTANDO e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena...”
(Poema do Menino Jesus – Fernando Pessoa)
Beijos,
Júlio Freitas' |
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08/04/2007 às 10h06
A decomposição da fantasia |
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Nesta segunda-feira (09) é aniversário de Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867), poeta e crítico literário francês, de cuja influência nascem a poesia internacional de tendência simbolista e os chamados 'poetas malditos' na França. Para entendermos o estilo de Baudelaire e sua importância ainda hoje, vamos ler o seguinte poema:
As Metamorfoses do Vampiro
(tradução de Ivan Junqueira)
E no entanto a mulher, com lábios de framboesa, Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa, E o seio a comprimir sob o aço do espartilho, Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho: - 'A boca úmida eu tenho e trago em minha ciência De no fundo de um leito afogar a consciência. Sou como, a quem vê sem véus a imagem nua, As estrelas, o sol, o firmamento e a lua! Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios, Quando um homem sufoco à borda dos meus lábios, Ou quando o seio oferto ao dente que mordisca, Ingênua ou libertina, apática ou arisca, Que sobre tais coxins macios e envolventes Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!' Quando após me sugar dos ossos a medula, Para ela me voltei já lânguido e sem gula À procura de um beijo, uma outra eu vi então Em cujo ventre o pus se unia à podridão! Os dois olhos fechei em trêmula agonia, E ao reabri-los depois, à plena luz do dia, A meu lado, em lugar do manequim altivo, No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo, Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos, Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança, Que nas noites de inverno ao vento se balança.
O Vampiro é a mulher que lhe suga até a 'medula dos ossos' e representa tudo aquilo que nos pode sugar as energias. Na primeira estrofe, a imagem sugerida ao leitor é a de uma relação sexual ('a mulher... Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa). Para quem não sabe, 'colear' significa mover o colo sinuosamente, aos ziguezagues, como uma serpente mesmo, e 'tomilho' é uma erva aromática da qual se extrai um óleo anti-séptico. Essas expressões, juntamente com a imagem do 'seio a comprimir sob o aço do espartilho', simbolizam os cinco sentidos então envolvidos na função prazenteira da sexualidade.
A fala da mulher dispensa qualquer comentário. Fica a sugestão às leitoras de colocar esse texto em seu 'about me' do Orkut, ao lado de uma foto bem sedutora para atrair até 'os anjos impotentes' ou a de decorar a fala para declamá-la ao ouvido do parceiro enquanto coleia. Garanto que ele também vai se sentir vampirizado até a medula...
Na segunda estrofe começam as metamorfoses que dão nome ao poema. O beijo, que selaria o orgasmo, frustra-se diante de outra mulher 'Em cujo ventre o pus se unia à podridão'... Caramba! O que será isso? O ventre, nesse poema, é mais do que a cavidade abdominal. Em sentido poético, pode representar o útero ou qualquer parte interior, o âmago ou o cerne das pessoas para as quais deixamos de olhar quase sempre, quando balançamos nossa tabuleta 'nas noites de inverno' ou, noutras palavras, quando vamos pra balada ofertar nosso produto. Cabe aqui uma reflexão sobre as manias que temos de tratar pessoas como coisas ou de permitir que nos tratem assim.
Esse poema é uma gradação decrescente dos ideais que norteavam a poesia romântica no século XIX e que ainda povoam nossas fantasias de 'afogar a consciência' nos leitos da beleza-padrão ('manequim altivo'), da fama, do sucesso, do dinheiro, das ostentações, etc. As Metamorfoses do Vampiro são as inevitáveis recorrências da realidade que sempre se impõe, quer queiramos ou não. E se a gente parar pra pensar, qualquer realidade é sempre um vampiro a nos 'sugar dos ossos a medula'.
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05/04/2007 às 00h46
Quem tem medo da Páscoa? |
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A idéia de uma coluna literária em formato de blog parece ser uma alternativa que vai além da interação entre autores e leitores intermediados por um blogueiro.
Quando entramos na cultura digital, houve quem falasse no fim dos livros sem pensar no que poderia, de fato, acabar com os livros, ou seja, o fim dos leitores.
Mas o leitor encontra na cibercultura uma resistência ainda maior porque, quando você liga seu computador e o conecta à web, você tem uma simultaneidade de linguagens à sua frente, que lhe obrigam ao que a semioticista Lúcia Santaella chamou de leitura virtual e movente. Para isso, é preciso você cultivar um outro tipo de leitura, a leitura contemplativa, que somente a linguagem artística possibilita.
Em se tratando da linguagem verbal, tal leitura só ocorre a partir da literatura, que requer – mais do que qualquer outro tipo de escrita – movimentações entre um e outro texto, na tentativa do leitor compreender melhor aquilo que lê.
A tecnologia digital facilita essas idas e vindas, além de ajudá-lo a alcançar o significado de um texto muito mais rapidamente do que você o faria se estivesse lidando com a matéria impressa.
A literatura veiculada por mídias digitais é, portanto, ao lado de outras características que não vêm ao caso agora, o recurso para que você possa exercitar a leitura necessária ao bom uso das ferramentas digitais de que dispomos hoje.
Quem for capaz de alcançar o sentido de um texto literário, numa abrangência aceitável, estará apto a fazer o mesmo com qualquer outro tipo de texto, em qualquer área do conhecimento humano.
Por isso, a partir de hoje, vamos trazer comentários críticos a respeito de textos literários – romances, contos, novelas, poemas, letras de música, etc. – para conversar com você sobre as experiências prazerosas que podemos ter na vida a partir de uma boa leitura.
Para começar, como estamos em plena Semana Santa, quero falar sobre Páscoa e, para isso, tomar um poema de Vicente de Carvalho (1866/1924), poeta paulista que, se estivesse vivo, faria aniversário hoje, e que, por sinal, morreu em Abril também (dia 22).
'Deixa-me, fonte!' Dizia A flor, tonta de terror. E a fonte, sonora e fria, Cantava, levando a flor. 'Deixa-me, deixa-me, fonte!' Dizia a flor a chorar: 'Eu fui nascida no monte... Não me leves para o mar'. E a fonte, rápida e fria, Com um sussurro zombador, Por sobre a areia corria, Corria levando a flor. 'Ai, balanços do meu galho, Balanços do berço meu; Ai, claras gotas de orvalho Caídas do azul do céu!...' Chorava a flor, e gemia, Branca, branca de terror, E a fonte, sonora e fria, Rolava levando a flor. 'Adeus, sombra das ramadas, Cantigas do rouxinol; Ai, festa das madrugadas, Doçuras do pôr do sol; Carícia das brisas leves Que abrem rasgões de luar... Fonte, fonte, não me leves, Não me leves para o mar!...' As correntezas da vida E os restos do meu amor Resvalam numa descida Como a da fonte e da flor...
A Páscoa é uma celebração judaico-cristã que, tanto no antigo quanto no novo testamento, significa passagem, momento de transição de uma vida em cativeiro, exilada de suas origens, para uma vida liberta. No caso da Páscoa cristã, a transição do corpo material, cujo limite é a morte, para a vida ressurrecta.
No poema 'A flor e a fonte', Vicente de Carvalho compara o 'eu' – que pode ser o seu 'eu' – à flor, e a vida à fonte.
Lembro-me agora de Zeca Pagodinho ('deixa a vida me levar') e de como os temas da vida podem ser tratados tanto sob o viés popular como sob o erudito e, em ambas as perspectivas, temos motivos para pensar.
Preste atenção aos estados de espírito da flor 'tonta de terror', 'a chorar', com medo de enfrentar o desconhecido ('Eu fui nascida no monte/Não me leves para o mar'), 'gemia', 'branca de terror', e despedia-se do aconchego do monte onde nascera para 'passar', 'transitar' ao desconhecido ilustrado pelo mar. A fonte é o elemento arbitrário que conduz a flor e, como o futuro descrito na aquarela de Toquinho, 'não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar/sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar'.
É essa possibilidade do choro paralela à do riso que nos faz sentir medo da Páscoa. Sim, medo!
Antes de Moisés, a Páscoa era a festa da primavera de pastores nômades, depois passou a significar a memória da transição dos hebreus cativos, no exílio do Egito, à sua libertação e, finalmente, passou a significar a ressurreição de Cristo. Em todas essas três significações da Páscoa ao longo da história temos a idéia de 'passagem'. E 'passar' – quando desconhecemos o lugar para onde vamos e, ainda por cima, somos levados, ao invés de irmos como nossas próprias pernas – dá medo.
Por isso, a fonte é descrita no poema como 'sonora e fria', 'rápida', 'zombadora', como a vida que 'canta' indiferente à nossa vontade e cujo tempo corre bem mais rápido do que o nosso tempo pessoal, nos 'levando' para longe dos balanços de nossos galhos (quando estou preso a um 'galho', vou para onde meu 'galho' me leva), de nosso berço, das 'claras gotas de orvalho/Caídas do azul do céu', da 'sombra das ramadas', das 'Cantigas do rouxinol', das 'festas das madrugadas', das 'Doçuras do pôr-do-sol' e das 'Carícias das brisas leves/Que abrem rasgões de luar'.
Todas essas imagens ilustram o conhecido do qual nós – flores brancas e tontas de terror – somos levados pela fonte da vida. E você, teria motivos a pedir à fonte: 'Não me leves para o mar'? |
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