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08/03/2010 às 11h05
Imaginário
 

Todo mundo que se criou na Amazônia conhece pelo menos uma versão das histórias de Matinta Pereira, uma personagem que faz parte do imaginário popular, manifesto em narrativas orais cheias de literariedade. Iva Rothe, que lança seu 3º CD (Aparecida), compôs uma versão dessa história, a meu ver, pra lá de moderna. Nela a personagem das narrativas orais é uma mulher do povo, tão comum que se poderia dizer “Matinta da Silva” em vez de “Pereira”. Uma mulher atemporal, não representada pelos ícones ordinários que sempre quiseram modelar as mulheres ao longo da história, uma mulher que não cabe em recipientes de forma definida.



Essas qualidades da Matinta da  cantora e compositora paraense  Iva Rothe aparecem já no título da canção Umatinta – falxa 6 do 1º CD da cantora (Aluguel de Flores), lançado em 2001.


A palavra que nomeia a música é uma conjunção entre o artigo indefinido “uma” e o substantivo “tinta”, instrumento usado na pintura, para aludir à letra da canção. De fato, uma pintura da personagem lendária.


     Matinta Pereira,

     Não ta lá na feira,

     Paneiro não há,

     Balança a cadeira,

     Noite sexta-feira,

     Na beira do mar.

     

     Matinta Pereira,

     Velha rezadeira,

     Sendeiro lunar,

     Atinge a clareira

     E a tinta avermelha o lugar.


     Não importa se tua porta toda torta

     De batida não quer se abrir mais.

     Ela se arranja e passa no gogó da cabaça.

     Quem mais olha menos vê,

     Quem mais vê menos acha

     Medo nessa aranha que se agacha

     E pega o fio de sua existência pra tear

     E, ao tecer e rastrear sua querência, sente a vida pratear. 


     Não importa a palafita descascada,

     O pé descalço, descamado, maltrado,

     Unção ela derrama na pala a fita do boi,

     Na sala as fitas e o chapéu

     Que o homem usa ao cantar pra São João.

     Não tem medo essa mulher que te abraça

     E aquece o frio da antecedência ao te cheirar

     E, ao te ver, desengaveta sua querência e sente a vida vastear. 


O refrão evoca a Matinta numa atmosfera fantástica, cheia de elementos simbólicos que vão de um simples paneiro à já referida tinta que pinta a personagem feminina em diversas versões.

Para a Matinta de Iva Rothe, não há dificuldade insuperável (Não importa se tua porta toda torta de batida não quer se abrir mais, ela se arranja e passa no gogó da cabaça). Ela é uma mulher misteriosa cujas peculiaridades são invisíveis para os sentidos ordinários (Quem mais olha menos vê), corajosa aos olhos extraordinários que conseguem vê-la (Quem mais vê menos acha medo nessa aranha que se agacha).

Antes de explorar a metáfora da aranha com a qual a Matinta é comparada, não posso deixar de mencionar a antítese “mais-menos”, que expressa suas propriedades indefiníveis, e a gradação que vai do olhar potencial à visão real da personagem, cuja característica é a coragem metaforizada na imagem de uma aranha, que passa por todo um processo de se agachar, pegar o fio de sua existência (vida), para tear, e prateá-la, ao tecer e rastrear sua querência (vontade).

O processo de viver é mesmo parecido com tear, construir uma teia, um tecido, uma rede com os fios da existência. Precisamos mesmo rastrear nossa querência, (re)avaliar constantemente se aquilo pelo que nos esforçamos é de fato produto de nossa própria vontade. Lembro-me agora do psiquiatra e psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa: “o problema crítico é romper esta rede de sugestão coletiva que passa pela sua cabeça e que você acredita ser meu pensamento” ( GAIARSA, José Ângelo. Amores Perfeitos. São Paulo, Gente, 1994, p.170).

A Matinta de Iva não se subordina às condições sócio-econômicas (Não importa a palafita descascada), ao sofrimento (o pé descalço, descamado, maltrado). O pé nessas condições, ao lado da pala (peça que se coloca na parte lateral exterior de cada um dos olhos de certos animais para diminuir a visão periférica), parece ser o espaço do objeto (unção) da ação de derramar, cujo sujeito é a Matinta.

Derramar unção significa untar com ungüento para purificar, corrigir ou melhorar. A literariedade aqui não reside em derramar unção no pé descalço, descamado e maltratado, prática comum entre as rezadeiras da Amazônia, mas em ungir a fita do boi que faz sua pala, referência clara à personagem das festas de Bumbá.

Considere que o olho de boi possui várias semelhanças com o olho humano e não será difícil entender o “derramar unção na pala a fita do boi” como uma sugestão à correção da visão humana que ele representa. Faz-se necessário concentrar-se, em detrimento do que é periférico para a nossa vida pessoal.

Os versos finais enfatizam a coragem da Matinta (Não tem medo essa mulher que te abraça), seus poderes paradoxais (Aquece o frio da antecedência ao te cheirar), seus desejos (E ao te ver desengaveta sua querência) e seus objetivos (E sente a vida vastear).

Desengavetar querência é também bastante sugestivo porque só engavetamos aquilo que em princípio não usamos, como o amor cantado por Chico Buarque na canção Futuros Amantes (num fundo de armário). A Matinta tira da gaveta sua vontade, ou seja, passa a fazer aquilo que quer e amplia sua vida.


      

 
 
Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação.
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