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02/02/2009 às 15h30
Sobre poesia erótica
 

Hoje eu me deparei com um texto de Alan Santiago, publicado originalmente no periódico cearense O POVO, em outubro do ano passado, sobre um fato, no mínimo, curioso. Um professor de literatura, também escritor, chamado Oswaldo Martins, foi demitido de uma das escolas onde trabalhava, apenas porque o gênero de poesias que ele escreve é erótico.

Como concordo plenamente com a matéria de Santiago, abro o fórum desta semana – em que os paraenses ainda estão movidos pelo espírito de polêmica que agitou o Fórum Social Mundial – com o texto dele.

Antes, porém, quero dedicar o post desta semana ao amigo Paulo Maués Corrêa, grande estudioso da poesia erótica aqui no norte brasileiro, e devo esclarecer que Oswaldo Martins nasceu em Barbacena, MG, em 1960. Formou-se em Letras na PUC-Rio. Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ, faz doutorado sobre a poesia erótica de Aretino. É professor de 2º e 3º graus. Publicou os livros Desestudos (2000), Minimalhas do alheio (2002), Lucidez do oco (2004) e Cosmologia do impreciso (2008), todos pela Editora 7 Letras.
 
A palavra alquímica

Alan Santiago especial para O POVO

'A demissão do professor e poeta Oswaldo Martins – de uma escola no Rio de Janeiro,  porque escrevia poesias eróticas – traz à baila uma discussão importante sobre capacidade de apreensão da literatura.

O realismo literário nasceu à luz de um escândalo. Após os seis anos em que passou escrevendo Madame Bovary, Gustave Flaubert foi levado aos tribunais, por ter conspurcado a moral pública e os bons costumes franceses do final do século XIX, com uma personagem cheia de volúpia e ódio. Muito antes, no século XVI, Pietro Aretino causava furor com seus Sonetos luxuriosos e tinha de se mudar, fugido, de Roma para Veneza. Nosso Gregório de Mattos também barbarizava numa Bahia provinciana no século seguinte e recebia a alcunha de 'Boca do Inferno'. Mas esses fatos, que parecem ter sido guardados num baú de antiguidades literárias, não estão tão no passado quanto se imagina. O caso do poeta e professor Oswaldo Martins, que ganhou repercussão na imprensa nacional esta semana, faz pensar que a história não esquece tão fácil assim de seus moralismos e hipocrisias.

Oswaldo foi demitido da Escola Parque, no Rio de Janeiro, há um mês, por ter sido descoberto como escritor de poesias eróticas. Oswaldo tem quatro livros publicados. 'Minha literatura nunca foi segredo para a escola. Eu sempre enviei para eles a atualização do meu blog e mesmo meus livros', afirma o professor que mantém no endereço um pouco de sua produção literária. Depois do ocorrido, uma enxurrada de comentários lotou uma das postagens com mensagens de apoio. Professores de outras instituições, alunos e amigos mostravam-se solidários a ele e contrários ao que havia acontecido. Toda essa história poderia passar como um caso primário de confusão entre o eu lírico do poeta e o autor, que é também um educador. Mas é mais do que isso. 'Acredito que há uma compreensão frágil até do que é a própria literatura, há uma distorção implicada aí, porque o espectro de leitura do brasileiro ainda é muito estreito', diz.

Pesquisas recentes do Instituto Pró-livro, com coleta de informações coordenadas pelo Ibope, revelam que a média anual de livros lidos no país passou de 1,8 ao ano para 3,7. O mercado registrou também, no ano passado, um crescimento nominal de 4,62% nas vendas de livros, o que significa 329 milhões de exemplares vendidos e a impressionante cifra de R$ 3,013 bilhões. Analistas acreditam que grande parte se deve a uma série de ações voltadas para a difusão do livro e promoção da leitura.

'Embora o Brasil esteja lendo mais, ainda há uma leitura superficial que se faz do mundo e da escrita; mostra uma visão persistente muito romântica e parnasiana da literatura, algo que tem de se adequar a moldes. É, na verdade, uma completa falta de capacidade de entender que existe mais do que erotismo ali. Esse erotismo está a serviço de outra questão, está combatendo os processos de morte, reafirmando a vida', pontua o professor. Junto a ele, outras vozes engrossam o coro dos que apostam numa proposta erótica para expressar-se literariamente.

Erotismo
 
O escritor Glauco Mattoso, autor de mais de 3 mil sonetos, é mestre em abordar, em seus escritos, tudo o que há de escatológico, grotesco e violento na sociedade, escancarando muito de suas disposições próprias sadomasoquistas e outras taras sexuais. Para Glauco, o higiênico – com tudo o que envolve, os odores corporais, a micção e a defecação – ainda é tabu na sociedade. O aparelho genital, relacionado a esses processos de higiene, está também ligado ao sexo, o que invariavelmente acaba fazendo a atividade sexual ser encarada como algo sujo, pecaminoso. 'Isso faz parte da cultura humana. Na sociedade tecnológica, a gente apenas tenta disfarçar esses tabus', afirma. E completa: 'O que eu faço na minha literatura é uma denúncia da violência, mas estabeleço um caráter muito ambíguo, existe uma dubiedade forte, porque a literatura permite isso e termino por mexer com as pessoas'.

Ao invadir a seara dos tabus, medos e preconceitos humanos, a própria literatura se questiona sobre seus limites – fortemente marcados pela subjetividade. Em entrevista por e-mail, a autora de Diana Caçadora, Márcia Denser, aponta delimitações que tentam clarear um pouco mais essa linha tênue entre o erótico e o pornográfico. 'O pornográfico tem como objetivo manipular e excitar o leitor propositalmente, o erótico não. O pornográfico não tem qualidade estética, o erótico é seu oposto, assim é que: o erótico areja, o pornográfico aumenta a sujeira. E o leitor sensível intui isso, ainda que não saiba explicar racionalmente', afirma.

Palavra

O bíblico Cântico dos Cânticos, do Antigo Testamento, com sua forte carga erótica, já evidenciava que o tema tem estado presente nas criações humanas há muito tempo. 'O social puro não funciona na literatura. É preciso ir para o psicológico e aí entra também o erótico', analisa o cearense Nilto Maciel, autor de contos e novelas eróticas no final dos anos 1970. A lista de autores e livros eróticos, satíricos, é imensa e encontra representantes em todas as escolas literárias. Mesmo a Inquisição, com sua repressão vigorosa, não conseguiu podar a subversão da palavra escrita.

O professor e poeta Oswaldo Martins não parou de ensinar em outras escolas depois do caso. 'A discussão aqui é sobre pessoas que não souberam ler. Precisamos nos perguntar se vamos sobreviver à mediocridade, porque afinal o que queremos é um país melhor, com mais leitura, com mais compreensão da vida', diz. E a batalha por sua proposta artística continua – mergulhando no erotismo, sim, mas também na música e nas artes plásticas. É uma dedicação que dura em média quatro anos para considerar um livro pronto. 'A palavra tem a capacidade não só de incomodar como de mudar sua cabeça, sua visão de mundo, a palavra é transformadora, alquímica, catalisadora', afirma Márcia Denser.

 

 
 
Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação.
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