Continuando a lista de melhores filmes de horror da década passada: Gaau Ji, de Fruit Chan / Hong Kong, 2004 Fruit Chan rodou ao mesmo tempo duas versões de “Dumplings”, título internacional do filme. Uma para ser lançada como longa-metragem; outra, como um dos segmentos de “Three... Extremes”. Tudo o que é mostrado no média está no longa, superior à versão condensada em todos os aspectos. A única diferença é a conclusão, mais apelativa no média, mais coerente no longa. A trama não é baseada em uma história real, mas é sutilmente estruturada como se fosse. O anticlímax é precipitado por eventos periféricos à trama central e o destino dos personagens é incerto, o que dá ao filme um ar de crônica policial. O estilo, entretanto, passa longe do naturalismo calculado de produções que tentam emular um tom jornalístico. Partindo de uma premissa intrinsecamente repugnante, Fruit Chan realizou um filme estranhamente sensual.

O Hospedeiro (Gwoemul), de Bong Joon-ho / Coréia do Sul, 2006 O melodrama familiar e o “creature feature” se encontram em “O Hospedeiro”, um filme tão deliciosamente retrô que a criatura gerada por computador parece animação em stop-motion, como nos velhos e bons tempos de Ray Harryhausen. Não foi o melhor trabalho de Bong Jonn-ho na década passada, honra que cabe ao magistral “Memórias de um Assassino”, mas é um dos poucos filmes de monstro surgidos depois da disseminação do CGI que não dependem apenas de efeitos especiais para empolgar o espectador.

Insônia (No ho Sonno), de Dario Argento / Itália, 2001 O último grande filme de Argento (até agora). Um exercício visceral de estilo que beira o pastiche e que só pode ser devidamente apreciado por quem aceita as regras do gênero. “Jogador Misterioso” (2004) e “Giallo – Reféns do Medo” (2009) foram decepcionantes tentativas de aproximar o giallo aos filmes de serial killer americanos. Argento acertou a mão no telefilme “Ti Piace Hitchcock?”, de 2005, que só não é tão memorável quanto “Insônia” por ser mais bem comportado.

Espíritos — A Morte Está ao Seu Lado (Shutter), de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom / Tailândia, 2004 A última tomada deste filme já garantiria seu lugar na lista. Está entre as mais aterrorizantes do cinema. Mas “Shutter” tem outras qualidades. Seus realizadores aproveitaram a fórmula do J-Horror, que na época começava a demonstrar sinais de cansaço, e provaram que convenções só viram clichês se forem usadas sem talento e criatividade. O filme tailandês recicla tudo, da mulher-fantasma de longos cabelos negros à mistura de sobrenatural e tecnologia que caracterizam os filmes japoneses que padronizaram o ciclo. E fica tudo parecendo novinho em folha. Quem gosta de cinema de gênero sabe que é assim que se faz.

Ju-on, de Takashi Shimizu / Japão, 2002 O primeiro “Ju-on” dirigido por Shimizu é de 2000 e foi lançado diretamente em vídeo, um representante do que os japoneses batizaram de V-Cinema. Sua continuação, “Ju-on 2”, foi lançada no mesmo ano, no mesmo formato. Em 2002, Shimizu rodou em película o “Ju-on” que faz parte desta lista, seguido no ano seguinte por um novo “Ju-on 2”. Além desses quatro, Shimizu dirigiu duas versões americanas, lançadas por aqui como “O Grito” e “O Grito 2”. Mesmo que “Ju-on” tenha perdido o poder de amedrontar o espectador, agora que a fórmula do J-Horror está esgotada, o filme continua admirável pela ousadia da estrutura narrativa e pela precisão na composição de imagens memoráveis, como a que ilustra este texto, referência direta à tela “O Pesadelo”, de Henry Fuseli, que, assim como Shimizu, revisitou várias vezes a própria obra, pintando pelo menos três outras versões do quadro.


Na semana que vem, publico a última parte da lista. E depois falarei sobre o pior filme de horror da década. Até lá.
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