Continuando a lista de melhores filmes de horror da década passada:

Pontypool, de Bruce McDonald / Canadá, 2008 Quantos filmes de zumbis você já viu em que, para entender o que está se passando, o protagonista recorre a Roland Barthes? Mesmo que não trate de mortos-vivos, qualquer filme em que pessoas infectadas começam a agir como figurantes de uma produção de George A. Romero é de zumbi. Neste caso, o vírus que transforma as pessoas em devoradores de carne humana ataca a linguagem falada. Certas palavras da língua inglesa são infectadas e contaminam quem as pronuncia e entende seu significado. Dos inúmeros filmes de zumbis da década passada, “Pontypool” é o mais original. Noam Chomsky deve ter adorado.

Identidade (Identity), de James Mangold / Estados Unidos, 2003 Você já jogou “War”? Então imagine que seus exércitos estão espalhados pelos cinco continentes e você está bem próximo de alcançar seu objetivo. Aí vem um espírito de porco e bate na mesa, espalhando as peças por todo lado. E agora, como você vai se lembrar de quantos exércitos tinha em Madagascar? Foi exatamente assim que me senti quando assisti a “Identidade”. James Mangold é um artesão talentoso e o roteiro de Michael Cooney é bem bolado. Os dois criam um mistério intrigante, com personagens interessantes, e depois metem a mão no tabuleiro. É verdade que dão pistas sobre o que vão fazer. Mas é como se o espírito de porco repetisse antes de estragar o jogo: “Olha que vou bater na mesa, olha que vou bater na mesa.” A grande jogada dos realizadores é continuarem a partida depois de bagunçarem o coreto. Se o espectador aceitar as novas regras, vai continuar se divertindo. Basta ter espírito esportivo.

The Living and the Dead, de Simon Rumley / Inglaterra, 2006 Este talvez seja o único filme de tortura em que o torturador não age de forma intencional. Pelo contrário, o protagonista, um deficiente mental, age com a melhor das intenções. Só quer provar que pode cuidar bem de sua mãe inválida. Os dois filmes seguintes de Simon Rumley, o longa-metragem “Red, White & Blue” e o média “Bitch”, que faz parte da antologia “Little Deaths”, são excelentes, mas “The Living and the Dead” continua sendo seu melhor trabalho. Rumley alterna imagens fixas e paradas, em profundidade de campo, com imagens em velocidade acelerada capturadas com a câmera na mão. O resultado é um belo exemplar de horror em família.

Pânico na Floresta (Wrong Turn), de Rob Schmidt / Estados Unidos, 2003 Quem gosta do gênero sabe como é fácil comprar gato por lebre. Em “Pânico na Floresta” não há propaganda enganosa. Rob Schmidt vende churrasquinho de gato pelo que é — e é um churrasquinho danado de gostoso. Foi o último bom slasher caipira lançado antes que o subgênero sofresse o impacto do cinema extremo europeu e do chamado “torture porn” norte-americano. Depois do australiano “Wolf Creek – Viagem ao Inferno”, de 2005, o subgênero não foi mais o mesmo. A Final Girl, por exemplo, já não tem garantia de sobreviver até o fim. Para quem gosta de slasher à moda antiga, “Pânico na Floresta” é um prato feito, digo, cheio.

Sinais (Signs), de M. Night Shyamalan / Estados Unidos, 2002 A Vila (The Village), de M. Night Shyamalan / Estados Unidos, 2004 M. Night Shyamalan vem sendo universalmente execrado pela crítica. A bem da verdade, ele não nos dá um grande filme desde “A Vila”, mas sou incapaz de falar mal de um cineasta que emplacou dois filmes nesta lista. “Demônio”, de 2010, baseado em um argumento escrito por ele, não passa de um telefilme razoavelmente divertido que calhou de ser lançado nos cinemas. E prova que Shyamalan é, antes de tudo, um grande diretor. Sem ele por trás das câmeras, “Sinais” e “A Vila” não passariam de ilustrações de roteiros bem bolados. Não passariam de “roteirices”. Graças à sua direção, são dois clássicos instantâneos do cinema de gênero.
E a lista continua.
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