Os dez primeiros anos do novo milênio foram movimentados para o horror no cinema. Vimos o apogeu e o declínio do chamado “J-Horror”; o surgimento do controverso fenômeno batizado de “torture porn”; uma enxurrada de refilmagens hollywoodianas de clássicos do horror das décadas de 70 e 80; a proliferação aparentemente sem fim de filmes de zumbi de baixo orçamento; inúmeros pseudodocumentários na linha de “A Bruxa de Blair” (1999); e dúzias de filmes com pegadinha no final, cortesia do sucesso feito por “O Sexto Sentido” (1999), de M. Night Shyamalan.
É hora, portanto, de passar a década a limpo e conferir o que foi feito de melhor no gênero entre 2001 e 2010. Listei os filmes de forma aleatória, sem ordem cronológica ou de preferência.

O Chamado (The Ring), de Gore Verbinski / EUA, 2002 J-Horror foi o rótulo aplicado no Ocidente para a leva de filmes japoneses de terror sobrenatural que seguiam a fórmula padronizada em “O Chamado” (1998), de Hideo Nakata. Muitos ganharam refilmagens nos Estados Unidos. A mais elegante e eficaz de todas foi a primeira. Gore Verbinski, mais conhecido hoje como diretor da franquia “Piratas do Caribe”, nunca fez nada tão bom, nem antes nem depois.

Session 9, de Brad Anderson / EUA, 2001 O melhor filme de horror da década. Anderson escapa da armadilha da pegadinha ao deixar bem marcadas as lacunas narrativas, aproximando o filme de um “whodunit”. Desde “O Iluminado”, nenhum outro filme usou o cenário com tanta eficácia na criação de atmosfera. Assim como no clássico de Kubrick, não há uma explicação racional satisfatória para as ocorrências no manicômio em que se desenrola a trama. Diversos filmes do gênero devem sua força ao impacto que causam quando são vistos pela primeira vez, mas a sutil obra-prima de Anderson melhora a cada revisão.

Alta Tensão (Haute Tension), de Alexandre Aja / França, 2003 Antes de ser recrutado por Hollywood para dirigir as refilmagens “Viagem Maldita”, “Espelhos do Medo” e “Piranha 3D”, Aja rodou em sua terra natal esta sanguinolenta homenagem aos slashers norte-americanos, sobretudo a um de seus mais notórios expoentes, “O Massacre da Serra-Elétrica”, de Tobe Hooper. O respeito que sinto pela convenção da Final Girl é tamanho que a pegadinha perto do fim me incomodou quando assisti ao filme de Aja pela primeira vez. Hoje, admiro o modo como ele estruturou a trama. A convenção foi, sim, respeitada. A Final Girl só não era quem eu esperava.

Deixa Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In), de Tomas Alfredson / Suécia, 2008 Deixe-me Entrar (Let Me In), de Matt Reeves / EUA, 2010 O melhor que se pode dizer a respeito da maioria das refilmagens-relâmpago feitas nos Estados Unidos é que são desnecessárias. Há certa lógica em refilmar produções antigas. As mais interessantes podem ser vistas como reciclagens artísticas. Mas a única lógica de refilmar uma produção recente de outro país é meramente comercial. No caso de “Deixe-me Entrar”, o original sueco é tão marcante que sua versão hollywoodiana não tinha como ser um bom filme. Na verdade, não tinha nem direito de ser um bom filme. Mas é, graças à direção de Reeves, que já mostrara talento, mas não tanto assim, no divertido “Cloverfield – Monstro”, de 2008.

Dead Man’s Shoes, de Shane Meadows / Inglaterra, 2004 Enquanto os franceses vão buscar inspiração no Grand Guignol, do outro lado do Canal da Mancha uma nova geração vem se firmando com produções que bebem de tantas fontes diferentes que é difícil apontar o que une cineastas como Neil Marshall, Simon Rumley, Jake West, Sean Hogan, Andrew Parkinson e Shane Meadows, a não ser o amor pelo cinema de gênero. “Dead Man’s Shoes” é, ao mesmo tempo, um filme de vingança perpassado de lirismo e um slasher recheado de ternura.
Minha lista continua. Mandem as suas.
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