27/07/2011 às 16h23
Renascida das trevas
 

Jack Ketchum não bate bem da cachola. Não li nenhum de seus romances, mas vi todas as adaptações de seus livros para o cinema: o enlouquecido “The Lost”, o repelente “The Girl Next Door” (muito mais perturbador que “A Serbian Film”), “Red”, “Offspring” e “The Woman”, que fez parte da programação do RioFan 2011.

 

O único desses filmes que pode ser considerado diversão para toda a família é “Red”, e é também o único deles lançado por aqui e, mesmo assim, diretamente em DVD, com o título “Rastros de Vingança”. Não fosse pelo final razoavelmente violento, seria filme de sessão da tarde. O que faz a produção valer a pena é o trabalho do grande Brian Cox como protagonista. A direção ficou inicialmente a cargo de Lucky McKee, mas depois que as filmagens foram interrompidas por falta de dinheiro, ele foi despedido e o norueguês Trygve Allister Diesen tomou seu lugar. Não é um filme de McKee, portanto, e pouco lembra os outros filmes baseados em livros de Ketchum.

 

A parceria de McKee e Ketchum deu certo mesmo em “A Mulher”. Os dois escreveram juntos o romance e o roteiro do filme, que dão prosseguimento à trama de “Offspring”, que já era a continuação de “Off-Season”, o primeiro livro da trilogia de Ketchum sobre uma família de canibais no Maine, terra de Stephen King, e que ainda não foi levado às telas. A trama de “The Woman” se passa imediatamente após a conclusão de “Offspring”, com a mulher do título, líder da família de selvagens, magistralmente interpretada por Pollyanna McIntosh em ambos os filmes, se curando de uma ferida na barriga enquanto tenta sobreviver na floresta.

 

 

O filme causou polêmica em Sundance, espaço ideal para sua primeira apresentação. O pai de uma família disfuncional, típica das comédias independentes americanas que todo ano estréiam no festival, avista a canibal na floresta perto de sua casa e decide caçá-la. Não para matá-la, mas para aprisioná-la e, supostamente, civilizá-la. Mas nem por um momento o espectador duvida que seu interesse seja outro. Desde sua primeira aparição, o excelente Sean Bridges não deixa dúvida de que Chris Cleek, o pai de família que interpreta, é um monstro. As atuações, aliás, foram erroneamente criticadas por serem artificiais. O registro do filme nada tem de naturalista. É grotesco e caricato por opção.

 

O foco de “A Mulher” é na família, mas a selvagem capturada assombra a trama do início ao fim. É como se um filme de Todd Solondz pudesse a qualquer momento ser invadido pela criatura de “Alien – O Oitavo Passageiro”. Assim como o alienígena do filme de Ridley Scott, a mulher não é nem boa nem má, é uma criatura de instintos, muitos deles perversos, mas voltados sobretudos para sua própria sobrevivência. Para facilitar uma leitura psicanalítica, Ketchum e McKee põem a mulher presa em um celeiro subterrâneo, como se fosse uma espécie de id coletivo da família, subjugado pelo superego representado pela figura patriarcal de Cleek, mas sempre prestes a se libertar e pôr a casa de pernas para o ar.

 

O último ato do filme é violentíssimo. O que não é de estranhar quando se sabe das predileções de seus realizadores. Em entrevista dada após a polêmica em Sundance, Ketchum, MacKee e o produtor do filme, Andrew van den Houten, que dirigiu “Offspring”, falaram sobre seus filmes preferidos do gênero lançados nos últimos anos. Foram citados os franceses “À L’intérieur”, “Martyrs” e “Irreversível”. Ketchum ainda acrescentou à lista “A Serbian Film”, e McKee reiterou o que todo fã do horror sabe, que nenhum desses filmes supera “O Massacre da Serra-Elétrica” (o original, é claro, de 1974). “That is THE horror film”, conclui McKee. 

 

 

A violência no final de “A Mulher”, no entanto, ao contrário do que acontece na assustadora obra-prima de Tobe Hooper, é puro grand guignol. McKee é um cineasta com uma sensibilidade genuinamente original em relação ao gênero, como demonstrou em “Criatura Maligna”, um dos poucos episódios memoráveis da série “Mestres do Terror”, e em “May – Obsessão Assassina”, um dos filmes de horror mais criativos da década passada. Para comprovar seu talento, basta assistir ao filme anterior da trilogia de Ketchum, o medíocre “Offspring”, e ver a falta que McKee faz.

 

Em meio às trevas propositais do cinema extremo atual, o sanguinolento, brutal e muitas vezes engraçadíssimo “The Woman” é um filme solar.

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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