19/07/2011 às 13h16
Sem limites?
 

Como levar a sério um filme em que o protagonista, que faz papel de ator pornô, toma como refém o próprio pênis? Imaginem a cena: o ator se recusa a seguir a ordem do diretor para transar com uma menor de idade; apanha uma faca, abre a braguilha, tira o pênis para fora e encosta a faca nele, ameaçando o diretor de “degolar” o verdadeiro astro do filme; aproveitando a confusão que reina no set, o ator escapole, arremessando-se pela janela; como se isso não bastasse, o diretor se volta para seus assistentes e grita: “Nosso filme fugiu pela janela!”.

 

 

Parece coisa do John Waters, mas trata-se de “A Serbian Film — Terror sem Limites”, a produção mais polêmica dos últimos tempos, que faz parte da programação do RioFan 2011. É incrível que a maioria de seus detratores não tenha percebido que o filme tem a intenção de ser engraçado. Admito que o humor seja nigérrimo, mas está presente do início ao fim. Por mais atroz que seja, a última fala do filme — que não vou reproduzir aqui porque só faz sentido no contexto — poderia ser acompanhada por um rufar de tambores, mesmo que ninguém na plateia estivesse rindo.

 

Aliás, não interessa se o espectador ache graça ou não. Uma piada sem graça continua sendo uma piada. E não há piada no mundo que faça rir gregos e troianos. Principalmente quando se trata de humor negro. Falo do humor negro autêntico, não de anedotas de salão. De piadas como a do “já nasceu morto”, que levam alguns a morrer de rir e outros a morrer de raiva. Sem falar que muitos dos que na hora caem na gargalhada depois se perguntam, afinal de contas, por que estavam achando graça. 

 

“A Serbian Film”, de Srdjan Spasojevic, faz parte do infame grupo de filmes ao qual pertencem “Canibal Holocausto”, de Ruggero Deodato, e “Violência Gratuita” (Funny Games), as duas versões, de Michael Haneke. Grande parte da crítica abomina esses filmes pelo jogo duplo feito pelos realizadores, que supostamente criticam a violência dos gêneros que acabam, eles mesmos, praticando. Mas é justamente por corresponderem à expectativa de seu público-alvo que essas obras são potencialmente subversivas. Como a uma boa piada de humor negro, o espectador reage instintivamente ao que vê e depois é obrigado a refletir sobre o que o levou a assistir ao filme.

 

Ao contrário do que ocorre no filme de Deodato e, em menor grau, no de Haneke, que são genuinamente angustiantes, o de Spasojevic é tão carregado de metáforas e simbolismos que o impacto da violência mostrada na tela é diluído. Além disso, todas as personagens, sobretudo Milos, o protagonista do filme e do filme dentro do filme, não são mais que marionetes. E isso é intencional.

 

 

O ator pornô comete as maiores atrocidades sob o efeito de, pasmem, um afrodisíaco para gado. Não se lembra de nada que fez. Aos poucos, vai recobrando a memória. De ator passa a espectador de seu próprio filme, e Spasojevic nos torna espectadores do espectador. O ato repugnante cometido por Milos no clímax, que se poderia chamar de momento “Rigoletto”, é previsível em meio à depravação generalizada e tem sua virulência atenuada pela presença do diretor Vukmir Vukmir (o nome e o sobrenome são iguais, o que acentua seu aspecto caricato), uma espécie de versão mais nova e mais magra do Zé do Caixão, que anuncia estar filmando a intimidade de uma típica família sérvia.

 

A outra sequência que deu notoriedade ao filme, a mais controversa de todas, também é apresentada como fato consumado em um vídeo que Vukmir projeta para Milos, que reage como se espera que o espectador de “A Serbian Film” reaja, com nojo por estar vendo mais do que esperava. Para deixar bem claro o jogo duplo de Spasojevic, Vukmir grita para Milos — que a essa altura já abandonou a sala de projeção, assim como muitos espectadores do filme devem fazer durante as sessões — que ele não está entendendo nada, que se trata do nascimento de um novo gênero, o “Newborn Porn”. O filme de Vukmir não tem limites, o de Spasojevic tem. Usa o cinema para falar de cinema.

 

“A Serbian Film” pode surpreender quem espera apenas um festival de atrocidades. Por mais que a crítica torça o nariz para este tipo de jogo duplo, ao levar ao pé da letra a expressão “torture porn”, Spasojevic fez um filme que pode ser rotulado como tal e também uma grotesca reflexão sobre os possíveis limites, ou a falta de limite, da violência no cinema.

 

Se eu recomendo o filme? Claro que não. Assim como não saio contando piadas de humor negro por aí. É perigoso lidar com gente sem senso de humor. Agora falando sério, deixem “A Serbian Film” para os fãs do gênero de horror, do cinema extremo, e para quem tem estômago forte. Se não for o seu caso, cuidado, piadas podem ser mortais.

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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