Os primeiros dez anos do novo milênio serão lembrados pelos fãs do horror no cinema como a década do “torture porn”. Reza a lenda que o primeiro filme do suposto subgênero teria sido “O Albergue”, de 2005. O termo foi cunhado por David Edelstein em um artigo de 2006 para o New York Magazine intitulado “Now Playing at Your Local Multiplex: Torture Porn”. Edelstein, entretanto, usa o filme de Eli Roth apenas como gancho para discutir a leva de produções violentíssimas, com “cenas explícitas de tortura e mutilação”, em suas próprias palavras, que começavam a chegar ao circuito “mainstream” nos Estados Unidos.
Além de “O Albergue”, Edelstein cita outros dois filmes de 2005, “Rejeitados pelo Diabo”, de Rob Zombie, e “Wolf Creek – Viagem ao Inferno”, de Greg Maclean, e dois de 2004, “Jogos Mortais”, de James Wan, e, muito apropriadamente, “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Sua intenção não era inaugurar um subgênero, mas a expressão “torture porn” caiu nas graças da crítica e passou a ser usada até retroativamente para designar filmes como “Ôdishon”, de 2000, dirigido por Takashi Miike, cineasta que não por acaso faz uma participação em “O Albergue”.
Quase todos os subgêneros do horror foram batizados pejorativamente por críticos de cinema, do “slasher” ao “splatter”. A validade do “torture porn” como um subgênero à parte será testada com o passar dos anos. Se o critério empregado para julgar se um filme pertence ao subgênero for o de Edelstein, conter cenas explícitas de tortura e mutilação, um apanhado histórico terá necessariamente que incluir os filmes que Herschell Gordon Lewis começou a dirigir na década de 1960, “Saló ou 120 Dias de Sodoma” (1975), de Pier Paolo Pasolini, “Les Yeux Sans Visage” (1960), de Georges Franju, e até mesmo, quem sabe, “Um Chien Andalou” (1929), de Luis Buñuel.

Da França veio um dos filmes mais influentes da década para o horror, apesar de não pertencer ao gênero, “Irreversível”, de Gaspar Noé. Dos que fazem partem do gênero, três ganharam notoriedade pela violência: “Frontière(s)” e “À L’intérieur”, ambos de 2007, e o mais perturbador de todos, “Mártires”, de Pascal Laugier. Em termos de sanguinolência, os franceses só perderam para filmes de baixíssimo orçamento como os da série “August Underground”, da produtora Toetag, fundada por Fred Vogel, o curta-metragem “Aftermath”, do espanhol Nacho Cerda, e “Philosophy of a Knife”, de Andrey Iskanov, com a duração inacreditável de 249 minutos.
Não tenho o estômago fraco e sou chegado a um bom gore, mas não vou perder mais de quatro horas da minha vida assistindo às cenas de tortura montadas por Iskanov, que se baseou em infames experimentos conduzidos pelos japoneses durante a Segunda Guerra, e que já havia rendido um filme nauseante, “Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana”, de 1988. Nem tenho paciência para a crueldade juvenil de Vogel e sua turma. Mas é preciso ter cuidado para não arrancar o trigo junto com o joio ou o fã do gênero poderá deixar passar joias como “Darah”, de 2009, um “torture porn” feito na Indonésia que lembra o trabalho de Sam Raimi em início de carreira.

É curioso que um dos melhores filmes dessa década banhada em sangue tenha tomado um caminho oposto, o do horror psicológico. “Session 9”, de 2001, dirigido por Brad Anderson, segue a hoje praticamente esgotada via popularizada por M. Night Shyamalan em seus primeiros filmes: a de deixar lacunas na narrativa que só serão preenchidas em flashbacks no final. Anderson tentou repetir o feito em “O Operário”, de 2004, mas não foi nem de perto tão bem-sucedido quanto em “Session 9”, um dos poucos filmes de horror da década passada que se aproximam da obra-prima. E que é praticamente “blood free”.
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