Mais de uma dúzia de thrillers policiais genuinamente sul-coreanos foram lançados no ano passado. É um assombro. A Coreia do Sul vem se tornando um dos pouquíssimos países capazes de fazer frente aos Estados Unidos na produção de filmes de gênero. Em 1999, “Shiri – Missão Terrorista” bateu o recorde de “Titanic” nas bilheterias locais. Em 2003, Bong Joon-ho nos deu um dos grandes filmes policiais da década, em qualquer cinematografia, o deslumbrante “Memórias de um Assassino”. No mesmo ano, Park Chan-wook lançou “Oldboy”, o segundo e melhor filme de sua trilogia da vingança.
Bong e Park são as influências mais óbvias na nova leva de thrillers sul-coreanos. Boa parte desses filmes centra-se em policiais corruptos e/ou ineficientes às voltas com um serial killer, como na obra-prima de Bong, e quase todos têm como tema a vingança, como na trilogia de Park (composta, na verdade, de três longas-metragens e meio, pois o média que faz parte de “Three... Extremes” também versa sobre o tema). Outra característica em comum é a sofisticação técnica. Para além das diferenças autorais, esses filmes compartilham um acabamento profissional raro fora do sistema de estúdios hollywoodiano.
Semana passada, assisti a quatro thrillers desta nova safra, todos de 2010: “No Mercy”, “I Saw the Devil”, “The Man from Nowhere” e “The Yellow Sea”. Só o primeiro não valeu a pena. Nenhum deles traz estampada com tanta clareza a influência da trilogia da vingança quanto “No Mercy”, escrito e dirigido pelo estreante Kim Hyeong-joon. Pior para Kim, que tornou a comparação inevitável. Quem não gosta do cinema de Park Chan-wook alega que por trás dos floreios de estilo seus filmes não passam de contos cínicos e cruéis. Mas o que faz de Park um grande cineasta é justamente o estilo. “No Mercy” é apenas cínico, sem estilo e sem redenção.
Os cineastas sul-coreanos são entusiasmados praticantes do que, em inglês, é chamado “genre-bending”. Gostam de forçar os limites do gênero, sem rompê-los. Um bom exemplo é “I Saw the Devil”, que se apresenta como um thriller tradicional de vingança, com elementos de filme de ação, mas acaba se aventurando pelo terreno do “torture porn”. Choi Min-sik, o inesquecível Oh Dae-su de “Oldboy”, interpreta um serial killer que é o mal encarnado, sem remorso e sem vestígio de psicologia, caçado pelo agente secreto vivido pelo excelente Lee Byung-hun. A direção é do já veterano Kim Jee-won, que tem no currículo “A Tale of Two Sisters” e o sensacional “A Bittersweet Life”.
“The Man from Nowhere” é o mais tradicional dos quatro. E isso não é demérito. Lee Jeong-beom alia com inteligência e sensibilidade o filme de vingança ao melodrama, à moda dos thrillers da era de ouro do cinema de Hong Kong. A premissa é uma mistura de “O Profissional” e “Taken”. Não há tons de cinza no argumento. Bandido bom é bandido morto. Numa cinematografia que preza finais niilistas e não dá trégua ao espectador, “The Man from Nowhere” é um sopro bem-vindo de heroísmo à moda antiga.
Na Hong-jin só possui dois filmes no currículo, mas já desponta como um dos grandes talentos de sua geração. “The Yellow Sea” não é tão bom quanto seu filme de estreia, “The Chaser”, de 2008, mas mostra um cineasta disposto a correr riscos e a fugir do formalismo excessivo que volta e meia ataca alguns de seus conterrâneos ilustres e transforma rigor em rigidez, como é o caso de Bong Joon-ho em “Mother” e de Im Sang-soo em “The Housemaid”.
“The Yellow Sea” parece seguir o estilo nervoso, taquigráfico, tão em voga no Ocidente. Mas a semelhança é superficial. Os planos curtíssimos, alguns com menos de um segundo de duração, são usados por Na para criar elipses brutais, que refletem a urgência da trama. Além disso, por mais curtos que sejam, são planos sempre bem elaborados, que mesmo nas cenas de ação mais frenéticas não desnorteiam espacialmente o espectador. Nada a ver com o estilo “nós pega os peixe” de cineastas como Fernando Meirelles e Alejandro González Iñárritu, que se valem de múltiplas câmeras para captar imagens de qualquer jeito e deixam para a ilha de edição o serviço que deveriam ter feito no set.
Esqueçam “No Mercy”, portanto, e se divirtam com os outros três. Mas façam um favor a si mesmos e assistam antes a “The Chaser”, para entender por que Na Hong-jin logo se tornará um cineasta tão conhecido e respeitado por aqui quanto Bong Joon-ho e Park Chan-wook. Mas não digam que não avisei: trata-se de um dos thrillers mais tensos que eu já vi, tão tenso que em certos momentos chega a ser quase insuportável. O cinema de gênero está vivo e passa bem. Só mudou de endereço. Deixou Hollywood e foi passar um tempo na Coreia do Sul.
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