21/04/2011 às 10h56
Fase
 

Desculpem-me por atualizar tão raramente o blog. É uma fase, deve ser uma fase, mas o fato é que ando questionando a validade de manter um blog de cinema. O último filme que vi na tela grande foi “Bravura Indômita”, dos irmãos Coen, que tem uma sequência magistral: a longa cavalgada noturna, em que Rooster Cogburn leva a si mesmo e seu cavalo à exaustão para salvar Mattie Ross. Parece pouco para um filme de duas horas, entretanto é mais cinema do que as dúzias de filmes em cartaz no Rio, juntos, oferecem.

 

Em 1991, Francis Ford Coppola profetizou que, graças à facilidade que as pessoas começavam a ter de fazer filmes com câmeras de vídeo, alguma menina gorducha em Ohio despontaria como o novo Mozart. O que ele não disse é que para cada obra-prima feita pela gorducha genial surgiriam centenas de filmes toscos, dirigidos por quem não nasceu com um dom divino e não se deu ao trabalho de aprender seu ofício. Em outras palavras, por quem não nasceu Stanley Kubrick e não tem paciência de estudar para ser um Sidney Lumet.


 
Para piorar, uma ida ao cinema hoje se tornou um programa de alto risco de irritação. Não me lembro da última vez em que fui a uma sessão sem que alguém atendesse o celular ou pelo menos o abrisse de quinze em quinze minutos para checar mensagens, inundando a sala com aquela maldita luzinha azul. Falta de educação na plateia, falta de talento nas telas. Mas, como eu disse, pode ser apenas uma fase, minha ou do cinema, não sei.

 

 

Depois que inventaram a pipoca de microondas, a única razão que me leva a sair de casa para ir ao cinema é a promessa de bom cinema. Histórias bem contadas eu vejo em casa. Como as histórias narradas por Fran Leibowitz em “Public Speaking”, brilhante documentário de Martin Scorsese. Ou a história de Jack Kevorkian no telefilme “You Don’t Know Jack”, com Al Pacino vivendo o notório dr. Morte. Ou a adaptação para a tevê de “The Sunset Limited”, romance em forma de peça teatral, com Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson. Ou ainda a história de Brian no oratório “Not the Messiah: He’s a Very Naughty Boy”, de Eric Idle, com a participação dos outros membros do Monty Python, menos John Cleese.

 

Todas as atrações acima foram exibidas este mês pela HBO. Quando não há nada de bom passando em canais fechados, resta o talento de Gilberto Braga e Ricardo Linhares na telenovela “Insensato Coração”. Nesta fase da minha vida, ou nesta fase por que passa o cinema, ir ao cinema, infelizmente, deixou de ser a melhor opção. 

 

 

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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