O bonequinho do Globo me surpreendeu. Aplaudiu — sentado, mas aplaudiu — ao filme “Doce Vingança”, refilmagem de “I Spit on Your Grave”, clássico do cinema sensacionalista da década de 70, mais especificamente de um dos subgêneros mais controversos e vilipendiados do horror, o rape/revenge (estupro/vingança). Marcelo Abbade encerra sua resenha com um lamento: “Infelizmente, grande parte da crítica conservadora possui um preconceito com esse estilo de filme e objurga sem assistir”. Foi corajoso, pois boa parte dessa crítica conservadora encontra-se no próprio Globo, exceção feita a Ruy Gardnier e ao próprio Abbade. Se a pauta fosse parar nas mãos de um de seus colegas, o bonequinho certamente dormiria na cadeira ou sairia da sala.
Qualquer dúvida de que “Doce Vingança” vale uma ida ao cinema logo se dissipou, mas não depois de ler a resenha de Abbade, e sim a de Roger Ebert, o representante máximo do conservadorismo crítico. Ebert foi o mais virulento algoz do original, conhecido no Brasil como “A Vingança de Jennifer”, que parece título de pornochanchada. Para ele, o filme é um “abominável saco de lixo”. E “Doce Vingança” não passa da “desprezível refilmagem de um filme desprezível”. Elogio maior não há, dado que gosto muito do original, uma obra singular, autêntico pesadelo em película, dirigido sem requintes, mas com uma fúria que eu diria uterina se Meir Zarchi fosse mulher.
Nas duas críticas, Ebert parece se interessar mais pela audiência do que pelas imagens na tela. Termina a resenha da refilmagem aconselhando os casais que porventura ousem assistir ao filme a discutirem a relação depois. Se um dos dois tiver gostado do que viu, o outro deve repensar o relacionamento. Até que enfim Ebert encontrou sua vocação. Deveria ser consultor sentimental, não crítico de cinema.
Na crítica ao original, publicada em 1980, Ebert se disse estarrecido pelo comportamento da audiência. Mas a que audiência se referia? Ele próprio admite que a sala não estava cheia. Na segunda parte do filme, a da vingança, ouviu uma mulher nos fundos, em “solidariedade feminista”, gritar “Cut him up, sister!”, e ser incentivada pela plateia. Ou seja, a plateia reagiu exatamente como deveria em um filme do subgênero. O que realmente perturbou Ebert foram os comentários de um homem de meia-idade, sentado a duas cadeiras dele, durante a primeira parte do filme, a do estupro. No caso, dos estupros.
Depois do primeiro estupro, o homem disse em voz alta: “That was a good one!”. Depois do segundo, “That’ll show her!”. E, depois do terceiro, “I’ve seen some good ones, but this is the best.” Ebert diz que gostaria de ter trocado umas palavrinhas com o tarado, mas acertadamente se conteve, convencido de que o homem tinha problemas. O que não o impediu de generalizar, dando a entender que o público-alvo do filme seria composto por espectadores do sexo masculino que agiriam como aquele sujeito obviamente desequilibrado, vibrando ao ver a protagonista ser repetidamente violentada.
Foi uma mulher, Carol J. Clover, no ensaio “Getting Even”, publicado no livro “Men, Women and Chain Saws”, quem expôs com mais eloquência a falácia do argumento de Ebert. Resumindo muito grosseiramente a sofisticação de seus insights, a conclusão a que Clover chega é a mesma que sinto ao ver filmes do subgênero (ainda que não concorde com todos os vieses freudianos de sua tese): o espectador normal não se identifica com o estuprador e sim com a vítima, independentemente do sexo do espectador e da vítima. Mais grosseiramente ainda, eu diria que tanto faz se a vítima for o personagem de Ned Beatty em “Amargo Pesadelo” ou a Jennifer de “I Spit on Your Grave”: o espectador não é o estuprador, é quem está sendo estuprado.
Acusado por Ebert de sádico, o espectador de um filme na linha de “A Vingança de Jennifer” poderia responder como o Bill, em “Kill Bill”, para a Noiva: “Do you find me sadistic? At this moment, this is me at my most masochistic.” Quentin Tarantino, aliás, foi influenciado por Clover e a cita como referência na feitura do roteiro de “À Prova de Morte”, que é, entre outras coisas, um filme de estupro/vingança, só que sem estupro.
O original ficou mais conhecido como “I Spit on Your Grave”, também o título da refilmagem, mas quando foi lançado, em 1977, chamava-se “Day of the Woman”, literalmente “O Dia da Mulher”. Poderia se chamar também “O Dia da Caça”, pois no fundo todo filme do subgênero estupro/vingança é feito para lembrar que nem todo dia é dia do caçador. Ainda não assisti à refilmagem da obra-prima tosca e poderosa de Meir Zarchi, mas fiquei encantado com a sabedoria de quem deu o título “Doce Vingança” aqui no Brasil. Seja quem for, pegou o espírito da coisa e certamente entende mais de cinema de gênero do que Roger Ebert.
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