Jane Jensen. Um nome que escrevo com reverência. Seu nome de batismo é Jane Elizabeth Smith e ela é apenas quatro anos mais velha que eu. Mas sou seu fã desde criancinha. Pelo menos assim parece. É estranho lembrar que seu primeiro jogo solo, “Gabriel Knight: Sins of the Fathers”, foi lançado em 1993, quando eu já tinha 26 anos, e ela, 30.
Jogo videogames, agora sim, desde criancinha. Sou da época do Atari, mas minha paixão sempre foram os jogos para PC, sobretudo os Adventures e os RPGs. Não por coincidência, esses dois gêneros têm ancestrais em comum, mas isso é outra história e fica para depois. Apesar de ter jogado todos os Adventures mais citados em listas de melhores, a trilogia do Gabriel Knight, criada por Jensen, permanece imbatível para mim como o ápice do gênero. Pouquíssimos jogos me deram um prazer tão intenso e tão prolongado. Até hoje, volta e meia eu os reinstalo e perco a noção do tempo.
São grandes jogos, o que não significa que sejam jogos perfeitos. Jensen sempre esteve à frente de seu tempo nas ideias, porém nem sempre na execução. O primeiro jogo da trilogia, por exemplo, é muito mais sombrio que outros lançados na época pela saudosa Sierra Online, empresa onde Jensen começou a trabalhar no ramo, mas visualmente parecia alguns anos atrasado. Basta compará-lo a “Day of the Tentacle”, da LucasArts, lançado no mesmo ano.
Jensen não gosta de se repetir. Cada jogo da trilogia utiliza uma técnica diferente de animação. O segundo, “Gabriel Knight: The Beast Within”, foi lançado em FMV (Full Motion Video), com atores de carne e osso interpretando os personagens (moda infelizmente passageira, que rendeu bons jogos), e o terceiro foi um dos primeiros Adventures em 3D. Ambientado em Rennes-le-Château, “Gabriel Knight: Blood of the Sacred, Blood of the Damned” antecipou em quatro anos “O Código Da Vinci”, que bebeu na mesma fonte, o livro “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, lançado em 1982. O jogo é bem mais inteligente e maduro que o romance de Dan Brown.
Jogadores acostumados aos videogames simplificados que vêm dominando o mercado desde o advento dos consoles certamente estranharão a complexidade, riqueza e inteligência da trilogia criada por Jensen. Gabriel Knight é um sujeito muito engraçado, mas suas aventuras não são para crianças e seu humor é muito mais cáustico que o de outros personagens famosos do gênero, como Tex Murphy e George Stobbart. O cerne de todo Adventure, no entanto, são os “puzzles”, que seria inapropriado traduzir como quebra-cabeças, e é neste ponto que Jensen ora acerta admiravelmente ora falha miseravelmente. Nenhum de seus jogos está isento de “puzzles” absurdos, ilógicos ou simplesmente ridículos, mas nada que uma consulta a um “walkthrough” na internet não resolva, e seus acertos compensam qualquer deslize.
O último jogo da trilogia foi lançado em 1999. De lá para cá, Jensen escreveu adaptações literárias dos jogos e dois romances, o último dos quais, “Dante’s equation”, publicado em 2003, lhe rendeu uma indicação ao prêmio Philip K. Dick. Não li os romances, meu interesse é por Jensen, a criadora de videogames, e esta Jensen andava meio sumida. Os jogos casuais em que trabalhou na Oberon Media não são a minha praia.
Desde 2003 espero por seu novo Adventure, intitulado “Gray Matter”, que tinha lançamento previsto para 2004. Foi uma longa espera. O jogo passou por várias empresas de diversos países europeus e finalmente saiu no mês passado para o PC. Terá versão para o Xbox, mas lugar de Adventure é mesmo no PC, por isso a espera terminou. Ainda estou no primeiro capítulo, mas já deu para sentir que, apesar do baixo orçamento, trata-se de um videogame autoral. Torço para que Jensen não me faça esperar tanto pelo próximo.
“Gray Matter” pode ser comprado e baixado aqui: http://us-adventureshop.gamesplanet.com.
E a trilogia do Gabriel Knight aqui: www.gog.com.
Divirtam-se.
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