Sofisticação técnica e confusão temática. Segundo Kiyoshi Kurosawa, essa mistura explica a grandeza dos filmes de gênero lançados nos anos 70 por cineastas já veteranos como Sam Peckinpah, Robert Aldrich, Richard Fleischer e Don Siegel. Filmes com personagens e temas complexos, dirigidos com precisão e profissionalismo, o oposto do que se tornou comum na era blockbuster, em que diretores sem conhecimento do ofício, como Michael Bay e Brett Ratner, a maior parte deles vindo dos videoclipes, ilustram histórias que podem e devem ser resumidas em uma única frase — o modelo high concept.
David Fincher começou em videoclipes, mas com oito longas-metragens no currículo e quase vinte anos de carreira no cinema, ele já pode ser considerado um veterano. É claro que só o tempo de serviço não explica sua maturidade como artista. Michael Bay também dirigiu oito longas, sem nenhum mérito artístico. Para que o talento evolua é necessário que haja algum talento. Bay não tem e nunca terá. Fincher tem de sobra e vem demonstrando isso desde “Alien 3”. Mas quanta diferença entre o entusiasmado garoto prodígio que se exercitou durante dez anos, de 1992 a 2002, e o cineasta maduro, em pleno domínio da técnica, que ressurgiu cinco anos depois com o magistral “Zodíaco”.
Sem voltar aos excessos estilísticos do passado, Fincher derrapou em “O Curioso Caso de Benjamin Button”, um filme que partiu de uma bela ideia “infilmável”, parafraseando Truffaut, e que acabou sofrendo de gigantismo, com falta de precisão evidente não só na condução da trama, mas cena a cena, o que era agravado por uma edição desleixada. Defeitos ausentes em “A Rede Social”, que se destaca, assim como “Zodíaco”, pela concisão e precisão.
O brilhante roteiro de Aaron Sorkin tinha 160 páginas. Em média, cada página de roteiro equivale a um minuto de filme. Logo, “A Rede Social” deveria ter quase três horas de duração. Tem duas. 120 minutos cravados, sem cortar diálogos ou arrancar páginas do roteiro. Fincher não enxugou a trama no papel; enxugou na câmera, no set. Isso é concisão. O melhor exemplo de precisão está relacionado a essa proeza.
Apesar da abundância de informações e da enorme quantidade de diálogos, o filme nunca é incoeso ou incoerente. Se o espectador estiver atento, não perderá nada da trama. Lição que Fincher certamente aprendeu com as comédias de Howard Hawks. Cada gesto e olhar dos atores, cada escolha de enquadramento, cada movimento de câmera, tudo transmite com precisão absoluta o essencial de cada cena, de cada relacionamento.
E onde entra a confusão temática? Responda você mesmo: sobre o que é o filme? Certamente não é sobre o Facebook. Como escreveu Todd McCarthy, “o filme é sobre tantas coisas — a primazia de uma ideia, os acontecimentos que definem uma geração, a ambição e o ímpeto fomentados pela rejeição e a raiva, as limitações da ortodoxia em oposição à imaginação desenfreada, os impulsos simultâneos de criatividade e destruição, a instabilidade dos conceitos de outsider e insider, o confronto entre rebeldia e autoridade”.
Sugiro que o roteiro de Sorkin seja, sim, sobre todas essas coisas, mas o filme de Fincher, assim como “Zodíaco”, acaba sendo sobre o que não é mostrado. De certa forma, o cineasta trabalha contra o roteiro. “A Rede Social” é um filme misterioso — divertido e angustiante ao mesmo tempo — que tem como emblema a expressão tantas vezes inescrutável de Jesse Eisenberg como Mark Zuckerberg. Fincher brincou dizendo que tinha feito o “Cidadão Kane” dos filmes de John Hughes. Ainda que seu estilo esteja cada vez mais distante do de Welles, o que é muito saudável, a brincadeira não está longe da verdade.
|