03/12/2010 às 11h03
Dirty Nascimento
 

Quando perguntaram a Julio Cortázar o que ele achava da Mafalda, criação genial de Quino, o escritor argentino respondeu: “No tiene importancia lo que yo pienso de Mafalda. Lo importante es lo que Mafalda piensa de mi”. Essa tirada me veio à cabeça ao ver José Padilha sendo procurado pela imprensa para dar sua opinião a respeito das operações policiais realizadas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Ora, não me interessa em nada saber o que Padilha pensa dessas incursões. Muito menos Wagner Moura. O importante é saber o que pensa o capitão Nascimento.

 

Os mafiosos que lucraram com a Lei Seca nos Estados Unidos adoravam os filmes de gângster rodados na mesma época em Hollywood, assim como muitos traficantes devem ter vibrado ao se reconhecerem em “Cidade de Deus”. Quando Nascimento, promovido a tenente-coronel em “Tropa de Elite 2 — O Inimigo Agora é Outro”, é aplaudido em um restaurante, o filme reflete o aplauso que Nascimento recebe dos espectadores, em cena aberta, ao espancar um político corrupto. E aposto que se o espectador for um policial do BOPE sentirá que as palmas são, e merecidamente, também para ele.

 

“Tropa de Elite”, a franquia, não pertence a Padilha. Não são filmes de autor, nem no estilo nem no conteúdo. Trata-se de um caso exemplar de criação coletiva. Entre seus inúmeros autores, contam-se Wagner Moura, Bruno Mantovani, Rodrigo Pimentel, Garotinho, Marcinho VP e Odinei Silva, além, é claro, da audiência, sobretudo a do Rio de Janeiro.

 

Não estou, de modo algum, desmerecendo o filme. É de gênero, o que me agrada muito. Foi produzido, e deu lucro, sem dinheiro público, o que me agrada mais ainda. Apesar disso, acho que o próximo filme da franquia será o melhor dos três. Desde que Padilha deixe a voz do povo pesar ainda mais e permita ao eterno capitão Nascimento, não interessa qual seja seu novo cargo ou patente, assumir de vez o papel de herói que lhe é de direito. Nosso Dirty Harry, assim como o BOPE, é um mal necessário. Pode ter crises de consciência, mas seus criadores não precisam pedir desculpas por ele. Que venha “Tropa de Elite 3 — Agora é pra Foder”.


 

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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