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CONFIRA: As promoções do Portal
25/08/2009 às 12h00
Ainda aqui

Minha mãe e minha madrinha foram ao cemitério, como todos os anos nesta mesma data. Compraram flores bem cedinho. Eu não fui, como sempre.
Deveria ser seu aniversário e após tantos anos, imagino que você deva estar na tal imensidão, que por mais que minha imaginação se esforce em tentar descrever, eu não sei como é e quiçá exista de verdade. Eu acho que não deva ser muito diferente daqui e pra alguns deve mesmo ser bem melhor.

Hoje, passei o dia pensando em você. Se eu for parar pra pensar, quase todos os dias, pelo menos em algum minuto, meu pensamento acaba indo parar no seu rosto fino, expressivo, nos seus cabelos grisalhos com grampos sempre no mesmo lugar, na sua corcundinha que ao longo dos anos foi acentuando e a risada debochada. Mesmo quando eu não penso em você, eu penso.

Não resisto imitar sua voz meio fanha e engraçada, seu vocabulário que às vezes de tão retrógrado me fez tanto gargalhar. Suas tiradas, sacadas e frases peculiares que não tenho como esquecer. Adoro falar como você, pra fazer gracinha, e ouvir a mamãe quase espocar a barriga de tanto rir ou o vovô conter o riso tímido de quem ainda pensa que rir de quem já se foi é desrespeito. Imito até a mamãe dizer, quase chorando de gargalhar, “deixa a bichinha em paz”. Engraçado não ter sonhado com você, porque isso acontece quase todas as noites.

Eu sonho com você caminhando comigo por lugares onde nem fui ainda. Com você me protegendo ou me olhando. Sonho com a gente conversando sobre coisas sobre as quais nunca me lembro quando acordo, com a gente brincando quando eu era pequena, ou simplesmente vejo você em algum canto de um sonho que nada tem a ver com nós duas. E hoje pensei como seria se você ainda estivesse aqui.

Será que brigaria comigo por sair muito à noite? Será que dormiria enquanto eu não chegasse? Será que implicaria com meu cigarro, com minha cerveja? Será que iria gostar dos meus namorados? Será que iria implicar com alguma amiga minha que pra você pudesse parecer maluquinha? Será que ainda ia cuidar de mim quando eu estivesse doente? Será que brigaríamos muito? Será que brigaria com a minha mãe ainda tentando mandar mais em mim do que ela? Será que iria concordar quando eu dissesse que vou sair de casa? Será que teria coragem de andar comigo dirigindo? Será que sua memória ainda guardaria tudo o que vivemos? Será que estaria bem velhinha ou ainda indo à feira? Será que iria me cobrar netos ou querer que eu aproveitasse bastante a vida? Você sempre foi “pra frentex”, como gostava de dizer - saiba que eu uso essa gíria que aprendi com você até hoje – e hoje sei que muito, ou tudo, do que eu sou, é por causa de você. Nem sei se você realmente está na imensidão, porque pra mim, parece que você continua sempre aqui. Posso parecer maluca, mas, às vezes, acho que sinto você comigo na cama quando acordo de algum sonho, e mesmo com medo, não abro os olhos pra voltar a dormir.

Quando acordei, mamãe já havia chegado do cemitério fazia tempo. Antes de me dar bom dia, foi logo perguntando, “sabe que dia é hoje?”. Como se eu pudesse esquecer... E continuou:
- Fizeste pelo menos uma oração pra tua avó?
- Não... – respondi ainda sonolenta.
- Desnaturada.


 


17/08/2009 às 08h00
Currículum passus*

Talvez a pauta da semana, do mês, do ano e da década seja a dificuldade de encontrar um par. Foi-se a época que isso era martírio exclusivo feminino. Pasmem, hoje quem mais reclama são os homens. Tiro pelos meus amigos, com menos frequência do que nós, mas vez por outra abrindo a boca pra dizer “está difícil encontrar uma mulher bacana”. Cara, muita gente é bacana, eu conheço dezenas de mulheres e homens bacanas, e quando eu era mais nova e menos exigente namorei muita gente bacana. Mas hoje, na idade em que me encontro, não dá mais pra resumir um par perfeito com um simples ‘bacana’.

O fato é que quanto mais experiente e adulto vamos ficando, mais difícil fica de encontrar alguém nos moldes que queremos. Ficamos exigentes e isso é perfeitamente normal. Antes a grande questão era se era bonitinho(a), divertido(a) e se estava pelo menos na mesma série que a gente. Hoje, importam as aspirações, as ambições, o que a pessoa faz na vida e o que quer dela, o nível de independência, responsabilidade, maturidade, inteligência. E sim, ainda precisa ser divertido. Mas não dá pra se apaixonar apenas porque a outra metade curte a mesma banda que você. Cabeça. Tronco e membros tanto faz.

Conversando com um amigo justamente sobre as barcas furadas em que já nos metemos e quão difícil fica a cada dia achar a metade quase perfeita, ele teve uma ideia genial. Imagina se todos nós tivéssemos sempre no i-pod, no pen drive, impresso na bolsa ou hospedado em algum site pessoal o nosso Currículo Amoroso? Seria talvez o fim dos nossos problemas! Imagina a praticidade! Vamos lá.

Você conhece uma menina linda e engraçada, antes de voltar pra casa e trocar telefone, ela diz: ei, vai lá na minha página e acessa o meu C.A. Beleza. Você chega e vai logo olhando. Experiência, uns 5 namorados. Dois anos com o fulano de tal, tendo desenvolvido prática em gerenciamento de crises e ciúmes; 3 anos e meio ocupando o cargo de noiva do beltrano, onde pode desenvolver incrível habilidade em cozinha, política da boa vizinhança com os sogros e companheirismo. Ótimo. Aí, você desce. Habilidades: Companheira, carinhosa, compreensiva, não é ciumenta. Fraquezas: Teimosa, impulsiva e mau humorada. Interesses: Tem grande interesse em trabalhar seu comportamento impulsivo com alguém tranquilo e compreensivo, disposto a ensiná-la a ser uma pessoa melhor. Nível de fidelidade: 9. Numa escala de 1 a 10, tá excelente! Cargo que deseja ocupar: Rolo fixo, relacionamento aberto. Ih.... Aí, você vê logo. Excelente currículo, histórico tranquilo e aspirações que a fazem promissora, fora o que você leu sobre signo, desejos, hobbys, etc. Mas matou no final, ‘relacionamento aberto’? Logo você que queria tanto uma namorada... Aí, fica a seu critério se ela merece esses estágio e talvez até seja contratada ou se você nem arrisca.

Imagina isso! Se cada um tivesse um currículo amoroso nós teríamos muito mais cuidado em nossas relações, como agimos em cada uma e muito mais cautela com as pessoas. A mesma que temos na área profissional. Lógico que se lançassem essa moda hoje, todos estaríamos fritos, porque a quantidade de free-lances que iam constar em nossos currículos não ia ser mole. E por conta disso, talvez a área de recomendações não fosse nos ajudar tanto. Mas imagina, seu primeiro namorado escreve ‘muito esforçada e carinhosa, mas beijou o Zezinho, meu amigo no passeio do colégio’. Aí, vem o segundo namorado e fala ‘ciumenta e possessiva, mas muito fiel e companheira’ e por último, seu último rolo que quase vira namoro diz ‘companheira, amiga, engraçada, me deixava livre e se mostrava confiável, cabeça aberta para entender os outros e as relações’.

Dá pra acompanhar a evolução conforme a idade e experiências! Dava pra colocar notas e estrelinhas para beijo, sexo, papo, bom humor... Talvez nunca mais a gente se metesse em roubadas, nunca mais cometeríamos erros ou nos deixaríamos levar pelo impulso de um beijo, ou iríamos contra a indicação dos amigos, os conselhos, e não teríamos trabalho algum em descobrir as minúcias, o comportamento do outro, e sem quebrar a cara, não sofreríamos, talvez não precisássemos aprender nada, já saberíamos tudo de cor e salteado e sem sofrer, não nos esforçaríamos para ser diferentes, melhores, não teríamos nada a aprender e ensinar, talvez nunca fôssemos maduros e programados, sem nenhuma grande loucura todo amor seria, seria... Pensando bem seria um saco.

Nessa hora, meu amigo e eu pensamos: quantos currículos mentirosos existiriam e quantos seriam deletados? Talvez eu nunca fosse querer pesquisar o currículo do meu pretendente. Por que nada, nada substitui a surpresa e a delícia da descoberta. E aos ciumentos eu aviso: para chegar na tão sonhada maturidade é preciso quebrar a cara antes. É a experiência que fez o seu par tão perfeito ser o que ele é. E somos todos humanos, dignos de errar, amar sem limites e meter os pés pelas mãos. E essa é a beleza da vida. Aprender com ela. E com o amor.

Se cada vez fica mais difícil encontrar aquele que pode preencher os seus vazios e desejos, talvez seja no fim, o lado positivo da coisa. Significa que não somos mais os mesmos e crescemos, e quando a tal metade vier, talvez até pronta de fábrica, seja aquela que chegue para ficar. Até o final, sem olhar para trás.

*Eu não falo latim, mas creio que isso se aproxime do que quero dizer: Currículo da paixão. Se isso estiver errado, por favor, blame Google!!! Paixão - Do latim patior, passus, que significa experimentar, suportar, padecer, forma-se o essencial passio (acus. pl. Passiones).

 


Luly Mendonça tem 27 anos, e há três escreve para o PortalORM. Perfeccionista como todo virginiano, mentirosa como todo publicitário.
É redatora publicitária, repórter e coordenadora da Revista Estilo Patio Belém, dona de brechó e aspirante à escritora. Tudo o que você falar poderá ser usado contra você em uma de suas crônicas. Cuidado!
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