Blogs e ColunasO LiberalAmazônia
CONFIRA: As fotos da galera que circula na night paraense
31/03/2008 às 16h30
Síndrome do Terceiro Mundo

Voltei de férias. Sair de férias é um problema. Porque acostuma. Nem lembro a última vez que passei tanto tempo de férias. É sempre assim, dez dias aqui, dez dias ali... Dessa vez fiquei quase um mês viajando. E como se volta a trabalhar depois disso?

Férias cansam, tão pensando o que? Eu precisaria de férias das férias pra poder relaxar. Porque viagem mata a gente. Não é justo viajar pra caramba, dormir pouco e logo depois já ter que voltar assim, sem nenhuma preparação, pro batente. Até porque não há nada melhor que descansar depois de não fazer nada.

Pior nem é só isso. Voltei com aquele velho sintoma terceiro-mundista: depressão pós-viagem. Mas é compreensível, imaginem minha situação: em meio a belas paisagens, conhecendo gente de toda parte do globo terrestre, visitando lugares lindos, de ruas limpas, onde as pessoas se respeitam, bebendo vinhos bons e baratos, fazendo festa todos os dias, pegando praia ensolarada com direito à banho no pacífico e, melhor, não muito longe do nosso país, na América do Sul. Assim é complicado! Pra piorar vivia rodeada pelos homens mais bonitos que já vi na vida, e isso não exclui sequer os malabaristas e artistas de rua. “Que isso, Luly, esse cara é hippie!”, meu amigo me recriminava. Quanto preconceito! Ora, tenho uma mente evoluída e além do mais, essas pessoas têm talento e futuro, só precisam de uma oportunidade. Eu tava ali pra dar uma oportunidade pra eles, ora. Homens lindos!

Ao descer do aeroporto já sou bem recepcionada, com um troglodita esbarrando em mim pra pegar uma mala. Na primeira pisada fora de casa, encontro uma reunião de mal-encarados e gente fedorenta tentando entrar num show de reggae, no meio da rua, ignorando meu carro a buzinar que, ainda por cima, ganhou um soco na lataria:  uma mulher enfurecida porque eu estava com o carro no meio da rua e, isso lá é lugar para um automóvel estar, meu Deus? “Sua vaca!”. É, foi assim que fui recebida de volta ao meu mundo. Depois não querem que eu reclame.

Mas eu não digo isso por aí, estou contando só a vocês a minha fraqueza. Eu amo meu país e minha cidade, mas senti o gostinho de ser bom-vivant entre uma realidade doce e pseudo-européia. Eu também odeio gente que volta reclamando do lugar onde vive. Tá insatisfeito, meu filho, se muda, ora! Mas o meu problema não é esse. É que eu sou uma profunda admiradora da inércia. Do lazy stile. Adoro ficar cheia de nada pra fazer. No fundo, eu queria ser hippie. Botar uma mochila nas costas e rodar o mundo colecionando subempregos e putas experiências. Mas também sofro de outro mal: responsabilidade e racionalidade. Que droga já ter passado da adolescência, quando o futuro parece tão distante que não há nada pra se preocupar, a não ser a sede de viver.

Mas o fato é que mal cheguei e já preciso de férias das férias urgente. Voltei a trabalhar numa sexta-feira! Onde já se viu isso? Como acordar cedo, sentar em frente ao computador e começar a resolver pepinos assim, sem nem uma kaiserzinha antes? Mas a primeira providência que tomei ao chegar ao trabalho foi procurar a data do próximo feriado.

Brasileiro é fogo. Vive de esperar feriado. Mal acabou de estourar o champanhe à meia-noite no reveillon e o som já tá tocando samba! “Onde vai ser o Carnaval, galeeeeraaaa?”, calma gente, são meia-noite e um. Aí, chega o carnaval. É chuva de confete, serpentina e o primeiro carro de escola de samba nem pegou fogo e o povo já fala da Semana Santa. É, brasileiro é um povo que se preocupa muito com o futuro. Eu, idem. Ando estressada demais com essa volta tão brutal à realidade. Preciso relaxar. Tiradentes tá aí, batendo na porta, doido pra ser enforcado. O dia, claro. Minha síndrome do terceiro mundo, essa coisa de pobre que nunca comeu caviar e reclama do feijão, vai passar. Mas eu preciso me curar de pernas pro ar. Recompor-se das férias é muita pressão.

 


Luly Mendonça tem 27 anos, e há três escreve para o PortalORM. Perfeccionista como todo virginiano, mentirosa como todo publicitário.
É redatora publicitária, repórter e coordenadora da Revista Estilo Patio Belém, dona de brechó e aspirante à escritora. Tudo o que você falar poderá ser usado contra você em uma de suas crônicas. Cuidado!
Favoritos
 

O Carapuceiro - Blog do Xico Sá
Blog Shoe Me
Tati Bernardi
Blonicas - Blog de crônicas
Twitter - lulymendonca
Blog do Fabrício Carpinejar



Últimos
  Par perfeito

Por que ela?

10 razões para querer um vampiro

O incrível paradoxo de ser mãe

A carta que Ana nunca receberá

O Arrepio

A Culpa

Acabou a fantasia

Gentilezas e constrangimentos

A vez dos homens

Arquivos
  01/09/2010 a 30/09/2010

01/08/2010 a 30/08/2010

01/07/2010 a 30/07/2010

01/06/2010 a 30/06/2010

01/05/2010 a 30/05/2010

01/04/2010 a 30/04/2010

01/12/2009 a 30/12/2009

01/10/2009 a 30/10/2009

01/09/2009 a 30/09/2009

01/08/2009 a 30/08/2009

01/07/2009 a 30/07/2009

01/06/2009 a 30/06/2009

01/05/2009 a 30/05/2009

01/04/2009 a 30/04/2009

01/03/2009 a 30/03/2009

01/02/2009 a 30/02/2009

01/01/2009 a 30/01/2009

01/12/2008 a 30/12/2008

01/11/2008 a 30/11/2008

01/10/2008 a 30/10/2008

01/09/2008 a 30/09/2008

01/08/2008 a 30/08/2008

01/07/2008 a 30/07/2008

01/06/2008 a 30/06/2008

01/05/2008 a 30/05/2008

01/04/2008 a 30/04/2008

01/03/2008 a 30/03/2008

01/02/2008 a 30/02/2008

01/01/2008 a 30/01/2008

Rss