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25/10/2009 às 06h00
Gentilezas e constrangimentos

Estou prestes a entrar no avião e naquelas poucas horas que antecedem o embarque já começo a me desesperar. Tem coisa mais constrangedora – além de elevador – do que estar num avião?

Começa que até o mais bronco dos seres transforma-se numa lady. Sim, porque nunca vi lugar com mais gente educada que no avião. Engraçado que essas mesmas pessoas não são educadas ao furar sua fila na entrada do cinema, na hora de passar com o carro pela pista ao lado trancando o seu ou correr pra pegar a única mesa do restaurante mesmo vendo que você calmamente se encaminha pra ela.

No avião ninguém passa a sua frente, nem você. Até aquela velinha de 80 anos que vai a passos de cágado tentando descobrir onde é a sua poltrona e erra sete vezes não é capaz de fazer você soltar um ‘com licença, senhora?’. Talvez seja o tamanho do avião, não sobra espaço nem sequer pra dividir encosto da poltrona com quem está do seu lado, e aí nem você, nem o figura colocam o braço no encosto pela lei da educação. Ninguém perde a classe na aeronave, você pensa quinze vezes na hora de apertar a luz vermelhinha pra chamar a aeromoça porque nunca tem certeza se é o ar, a luz ou o botão que aciona os comissários. Quando você aperta, ela demora 25 anos para aparecer e mesmo assim, ninguém reclama. Você já viu alguém dizendo ‘esse atendimento dos comissários é péssimo, faz vinte minutos que chamei a comissária e ela me trouxe água quente!’. Não, nunca.

A hora de comer é outra desgraça. Tá todo mundo com fome, muita fome, mas ninguém tem coragem de pedir mais uma barra de cereal ou outra goiabinha sob pena de olhares de reprovação da comissária de bordo e até mesmo do gordo ao seu lado que não teve coragem de fazer isso antes de você.

Não tem nada pra fazer no avião. O filme que está passando provavelmente é uma versão dublada do ‘Jurassic Park’ ou do ‘Querida Encolhi as Crianças’ e você não consegue entender porque o fone ao seu lado não funciona. Pode pedir outro pra aeromoça. Ele também não vai funcionar. Caso ele funcione e você tenha a brilhante ideia de ouvir o que está tocando nas estações de radio você se sentirá num motel. Em uma toca o melhor da MPB brega, na outra algum flash que você nunca ouviu (nem sua mãe), na outra Besame Mucho e Mariah Carey. Se você der sorte (se é que isso pode ser chamado de sorte) ouve Oceano do Djavan e Homem Aranha, do Jorge Vercilo, cantado pela Gal.

Constrangimento pior é estar no elevador. Primeiro: não faça contato visual. É incrível como todo mundo olha pra baixo. Publicitários: comecem a fazer anúncios pro chão dos elevadores, vai ser um sucesso. Às vezes, alguém quer quebrar o gelo e fala: ‘nossa, mas tá quente hoje, né?’ e você de casaco se tremendo responde, ‘muito!’.

Quando tem criança você fica rindo fingindo que gosta de crianças e mexendo com elas só com os olhos ou o dedo. Não dá pra ignorar criança no elevador, porque elas olham pra você desde o 19º andar até o térreo. E aí, a mãe fala: ‘tá olhando pra moça, meu filho?’ e ri, obrigando você a perguntar: ‘ é seu filho? Que fofo, quantos anos?’. Quando ele está cheio, a coisa piora. Não dá pra espirrar, se mexer ou olhar pro chão. Uma vez percebi que todo mundo encarava uma única coisa no elevador: meu dedo com um baque gigantesco que deixou a unha preta. E eu constrangida só podia olhar pro espelho, mirando o selo pra fora da calça de uma gorda. Cuidado com os pés se você morar em prédio.

O motel é outro lugar na lista, quando você não tem intimidade com quem leva. ‘Senhor, estamos lotados, só temos suíte de luxo’. E agora? Como você vai dizer pra gatinha pra procurarem outro lugar porque a suíte é olho da cara? Já era meu amigo, vai ter que pagar e reze pra comer. A mulher sempre fica no carro disfarçando que mexe em algo na bolsa enquanto o cara fecha a cortina da garagem que emperra. Conto nos dedos as mulheres que tem o queixo de fechar a cortina enquanto o namoradinho desliga o carro, tira o som e pega a carteira.

Nem vamos tocar no assunto ‘sala de espera’. Senha pra dar umazinha é pior que bingo de velinha. Quando chamam pelo nome o outro casal faz ‘uhhhh, quase, ainda não somos nós’ e um bando de casal a fim de se pegar, fingindo naturalidade na espera do coito. Vocês entram no quarto e fica a dúvida: acender a luz ou não? Dá medo de ligar o som e broxar. E se a TV estiver ligada, desligue rapidamente pra não constranger a fêmea que solenemente está sendo levada pro abate. O espelho é um item importante. Com intimidade ele é um aliado, sem intimidade ele é o inimigo. Dá uma aflição em saber se estão nos olhando ou não. E a gente sempre olha de soslaio, se pessoa levantar o olho a gente finge que não tava dando uma brechada por ele. Ao acabar o rala-e-rola, ligar pra pedir a conta. Deveria haver um sistema mais informatizado pra desobrigar a ouvir aquela voz de indolência da telefonista que sempre pergunta ‘houve consumo’? Houve minha amiga, o consumo de uma xo****. ‘Preservativo e uma água’. Preservativo. Falar camisinha dá a mesma vergonha que pedir modess pra quem você mal conhece. Aí você diz ‘tem um absorvente?’. Será que as telefonistas comentam ‘aquele outro consumiu 4 camisinhas, 7 cervejas, chocolate e um toddy, esse aí foi uma água, uma camisinha e olhe lá’. E quando não passa o cartão? Em restaurante se lava prato e no motel se lava o que? Prefiro não comentar.

Agora mais constrangedor que o Blog da Luly que aborda essas coisas. Esse eu tô pra ver.


 


15/10/2009 às 12h00
A vez dos homens

Se as mulheres têm direito de não serem compreendidas, os homens merecem o contrário. Carregamos confortavelmente o título de intangíveis, seres que jamais serão explicados e nos fiamos nisso para fazer nossas loucuras e peripécias sem precisar dar explicações. Já os homens têm de ostentar o pejorativo ‘eles não prestam’, ‘eles são todos iguais’.

Ora, eu seria uma mulher extremamente machista e cafajeste se concordasse 100% com isso. Sim, eles são, na maioria, todos iguais, mas isso é ótimo! O desafio é conseguirmos pensar como eles e tentar entendê-los – o que é 'ralado', já que não entendemos nem a nós do próprio sexo. Mas, gente, dá. Se os homens são mesmo desprovidos de muito mistério, só podemos usar isso a nosso favor. Vamos nos colocar no lugar desses pobres machos-alfa.

Homens não prestam atenção na gente quando tem futebol. Querida, vamos imaginar que hoje é o último capítulo da novela e a Maya finalmente vai sair do limbo e voltar para os braços do gato do Raj. Aí, nessa hora crucial seu marido ou namorado resolve começar a contar como foi que o Zeca deu aquele carrinho no Maneca, e o Dudu matou no peito e driblou que nem o Robinho e 'ô, não vai prestar atenção em mim? Vai ficar vendo essa 'merda' desses indianos?'. Não queremos nem saber o que pode acontecer se seu namorado a fizer perder esses detalhes imprescindíveis da novela ou for o responsável por você não ter visto concentrada o episódio do 'Sex and The City' em que Mr. Big termina com a Carrie. Portanto, pense nisso!

Homens sempre nos apressam na hora de fazer compras e nunca nos ajudam a escolher nada, que saco! Saco é ter que ficar segurando sacola e esperar a gente se decidir entre 15 vestidos pra não levar nenhum. É claro que ele vai apontar o vestido estampado e não o nude discreto, porque ele nem tem idéia que isso é chique e está na moda. Aliás, ele nunca ouviu a palavra nude na vida. Assim como você não sabe o que é pistão. Não tente fazê-lo entender que você precisa de um sapato de três mil reais dizendo ‘mas é um Louboutin’! 'Lobo o queee???'. Ele nunca vai entender quem são Marc Jacobs, Gianni Versace, Dior, do mesmo jeito que você não saberá nunca a escalação da seleção de 70. Já pensou o contrário? Seu namorado correndo louco durante cinco horas dentro de um shopping de informática, testando todos os lançamentos em tecnologia, você segurando as sacolas, e ele vira pra você e diz: ‘o que você acha desse HD externo de 300 gigas?’. E você sem entender o que o processador, os megahertz, os terabytes têm de tão interessante e mais, o que tem a ver com você?! Então, faça um favor pra ele e pra você: faça compras com sua amiga!

É um absurdo usar as mesmas roupas há mais de um ano e essa camisa há 10 anos e nunca joga fora! Não peça para ele jogar as velharias e blusas furadas dele fora, não diga que ele precisa comprar roupas. É o mesmo que ele dizer ‘é um absurdo você comprar tanta roupa em um ano, você não precisa disso. E esses sapatos? Eu compro roupas novas se você ficar um ano sem comprar um sapato’! Medo.

Aliás, sapato é outro assunto delicado, que honestamente, me faz lembrar sacanagem. Analise comigo: Mulher gosta de sapatos. Homem gosta de mulher. Seu namorado não consegue ficar sem Playboy, sem parar na banca pra olhar ao menos a capa de soslaio, discretamente pra ver todos aqueles peitos de fora, assim como a gente não resiste passar por uma vitrine sem olhar para os sapatos. Tente. Seu namorado a ama, sim, mas vai dar um jeito se você o proibir de entrar num site de sacanagem. Assim como nós, se eles nos proibirem de entrar no da Melissa - é mais fácil ficar sem acessar o paparazzo para mulheres - ou no site do Manolo Blahnik. Nós talvez nunca tenhamos um Manolo. Só queremos sonhar. Eles também. Então, o melhor é ninguém discutir sobre peitos e sapatos. Como não discutiremos sobre as horas a fio jogando videogame e ficar horas vendo 'Friends' ou fofocando com as amigas – sim, continuamos a ter assunto e eles continuam tendo fases pra passar.
 
Então, talvez nós mulheres não sejamos tão diferentes assim deles. Sim, somos mais sentimentais, exageradas, analíticas. Homens funcionam de forma prática, não complicam nada, verde é verde, preto é preto e banho é rápido. Que bom! Então, deixemos a César o que é de César, veremos que é ótimo que os homens sejam afinal iguais, porque mesmo sem nos entender não nos cobram explicações por isso. E no fundo, sejamos homens ou mulheres, todos queremos a mesma coisa: muito amor.

P.S. O Blog da Luly está concorrendo a melhor blog paraense! A votação é dia 5 de novembro. Votem lá e me ajudem a ganhar algo que não seja pato em rifa! HTTP://blogueirosparaenses.com


06/10/2009 às 08h00
Mulheres...

Pedro era lindo. Rosto, cabelo e corpo. Um pouco machista, vai. Mas para Dalila aquilo era até charmoso. Ele implicava com algumas roupas, ficava enciumado com seu passado e achava que algumas amizades podiam influenciá-la. Ela fazia charminho, desconversava, sentia o ego macio como um veludo e o dobrava, afinal, sempre fora correta e de personalidade forte. Não se deixava levar por ninguém, amigas ou mesmo namorado, tinha princípios e nunca fora do tipo submissa.

Dalila era sui generes. Amava postais, francês, comida orgânica, gatos, xales da avó, roupas de brechó, babados, saias rodadas, gengibre, sementes de linhaça, chá e tango. Pedro era fã de U2, futebol e tinha uma banda quando era mais novo. Mas Pedro a conquistara rápido, nem ela sabia explicar. Dalila passava o dia ouvindo U2 para se lembrar do amado. “Love is a temple, love a higher law. Love is a temple, love the higher Law...”. Comprou os cd´s que ele não tinha e lhe deu de presente, foi ao estádio com ele, vestindo a camisa do Flu, xingou o juiz, sempre sem perder a classe, parcelou de 12 vezes uma passagem para acompanhar Pedro quando Bono veio ao Brasil, assistia ao campeonato na TV enquanto ele tomava chá de gengibre com sementes germinadas. Por anos.

O despertador de Pedro tocou novamente. Dalila queria atirar o telefone na parede e esganar o namorado. Como pode uma criatura acordar feliz ao som de ‘uno, dos, três, catorze! Hello, Hello!’. Ele nem se mexe enquanto Bono Vox grita ao telefone, e ela sempre tem que acordar sobressaltada e passar o celular pra ele. Mas ele põe na função soneca. Toca de novo. Dalila odeia soneca. Dalila odeia Bono. Odeia ter gasto 2 meses de salário para ir ‘àquele show de merda’, como ela cansou de jogar na cara de Pedro. Odeio futebol. Odeia homens que gostam de futebol. Mas odeia mais o Bono. Teve uma conversa definitiva com o namorado: ou ele troca de celular e de gosto musical ou troca de namorada. Naquela casa só entrava tango.

***

“Imita o Silvio, vai, por favor!”. Nelinha tinha convulsões de tanto rir ao ver o novo amado fazendo a sua versão do Silvio Santos. “Oe, Oe, má vem pra cá voxê”. E ela caia na gargalhada. Finalmente alguém com a sua cara, como ela queria: diferente, divertido, cheio de estilo e lindo! Jogava tênis, tocava bateria, usava dread no cabelo. Tinha uma banda. Andava de bicicleta ou a pé porque era preocupado com o meio ambiente. Ela achava tudo isso o máximo.

Na mesma semana já estava enfurnada na casa dele. Era o máximo ficar na casa dele, tinha uma máquina de fliperama linda, jogavam toda hora. Ela topava todos os convites. Pra cima e pra baixo com ele. Primeira dama da banda. Ele era mais novo, mas era tão gostoso... E maduro. “E o Silvio?”, “Má roda, roda e me dá um beijo, Oe!”. Nelinha não agüentava, às vezes ria sozinha ao se lembrar do namoradinho imitando o apresentador. Ele fazia tudo que ela queria, principalmente quando via que ela gostava e se divertia, se apaixonou, queria levá-la a sério mesmo, muito carinhoso. Era perfeito. Mas havia alguma coisa errada. Como um cara não tinha fogão, nem geladeira? Preferiu comprar fliperama, ele dizia. Como assim, um cara dessa idade jogando fliperama o dia inteiro? E esse trabalho de só cantar em uma banda e jogar tênis? Andar de bicicleta? Nelinha não ia ficar andando de bicicleta por aí. Não senhor. E outra coisa, essa história de ficar imitando o Silvio o tempo todo broxa. Que mico, meu Deus.

     ***

Outra vez na casa de um cara lindo e gostoso que Vicky conhecia na festa. Com um amasso daqueles não dava pra resistir. “Você é linda demais. Você é exuberante. Inteligente. Uma das mulheres mais interessantes que conheci.”. Ela se derretia e ia tirando a roupa. De lado, de quatro, de frente, de bruços. Melhor sexo de sua vida dos últimos tempos. “Me liga”, ela disse fechando a porta do apartamento, depois de muito lutar pra sair dali. Ele não queria deixá-la ir de jeito nenhum. Vicky nas nuvens. Um dia, dois dias, três, duas, uma semana, um mês. O cara nunca ligou. Vicky frustrada. “Poxa, mas ele disse que eu era o máximo. Qual o problema? O que fiz de errado?”.

O outro já não era tão bonito, mas com tanta inteligência e elogios fez Vicky esquecer a frustração do último cara e o sentimento de abandono. Ele falava várias línguas e a língua dela. Viram que combinavam na primeira noite e depois de uns copos, ele ficara mais charmoso. E que bundinha. Nem chegaram a casa dele, foi ali na garagem do prédio dela mesmo. Meio vestido, meio por cima, meio selvagem, muito escondido. Ele ‘nunca havia gozado daquele jeito e ela tinha que passar a semana toda com ele na casa de praia dele’. Ela topou na hora. Ele não ligou. Ela caiu de cama. Uma semana depois, toca um número estranho. Era ele! “Tive que ir as pressas pra São Paulo, não deu pra ter avisar. Tô com saudade, vamos nos ver?”. Ela deu um pulo. Que maldade pensar que eles são todos iguais, o cara tava viajando, não deu pra ligar, ele não é como o outro. Saíram, mas não pro restaurante como ele falou, foram pro motel. Era muita saudade. “E a casa de praia?”, “Vamo esse fim de semana logo”, ele falou. E nunca foram, e nunca mais ele ligou. Filho da p***.

Quando Vicky conheceu esse cara mais novo, o terceiro, nem deu papo quando ele disse que ela era linda e que ele tava hipnotizado. Ela fez doce a noite toda, mesmo ele sendo um gato. Moleque novo, ela pensava, vai dar trabalho, só quer me comer também. E muitos drinks e muito papo. Ele começou a surpreender. Era esperto e educado. Tinham o mesmo signo, fazia o mesmo curso e ele já trabalhava, enquanto ela só fazia estágio. Conheciam muitas pessoas em comum e curtiam as mesmas bandas. Foram pra casa dele, ele morava com os pais “mas eles tão viajando”, ele falou. Vicky hesitou muito, enrolou, enrolou até sair do bar com ele. Chegou lá, ouviram vinil. E ela enrolou. Ele tentando. Ela embaçando. Até que já meio de pilequinho, deu. Chão da sala. Ele pediu pra ela dormir, mas ela tinha que ir. Nem deu o telefone dessa vez pra não se frustrar. Mas ele ligou dois dias depois.

 “Quem?”, “Sou eu, peguei teu número com o amigo do amigo do primo do vizinho do teu colega”. Queria convidá-la pra sair. Ela inventou uma desculpa. Ele continuou ligando. Barzinho? Não. Ópera? Não. Reunião da casa dos amigos? Não. Cinema? Não. Saudade. Almoçar comigo e minha família? Cai fora. Vicky parou de atender. Não dava pra entender os homens, faziam de tudo pra dar umazinha...

 

P.S: Queridos leitores, agora eu também tenho twitter! Sigam-me os bons! @lulymendonca


Luly Mendonça tem 27 anos, e há três escreve para o PortalORM. Perfeccionista como todo virginiano, mentirosa como todo publicitário.
É redatora publicitária, repórter e coordenadora da Revista Estilo Patio Belém, dona de brechó e aspirante à escritora. Tudo o que você falar poderá ser usado contra você em uma de suas crônicas. Cuidado!
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