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CONFIRA: Dicas de turismo do Portal ORM
21/01/2008 às 10h09
Girassóis

Só você meu deu girassóis. Assim, num vaso na janela do meu quarto esperando que eu despertasse. Eles sorriram e me deram bom dia. Eu nem sequer tinha dito a você que gostava de girassóis.

Uma vez ganhei rosas alaranjadas, porque eu “era muito comum para ganhar rosas vermelhas”. Nem sequer se dava conta de sua triste visão míope, quando esbanjando um sorriso orgulhoso recebeu de volta um outro assim, amarelo. Não há coisa pior do que alguém que acha, sem sombra de dúvidas, que lhe conhece. Eu não sou comum para receber rosas. Ponto.

Só você me enxergava como eu queria. Com os girassóis, as bossas novas e os sonhos. Com os beijos banhados em vinho e a rede coberta de amor. E foi só nessa vida – porque tivemos mil vidas passadas, era certo que tivemos - quando eu tentava te cantar, com alguma gracinha ao pé do ouvido, que tua boca completava a minha frase, como se completa um copo de metade vazio, sedento de mais chopp. Mais uma dose, mais uma dose. Você lia meus pensamentos e eu só fazia dizê-los em voz alta.

Já me falaram em casamento. Já me disseram: é você para sempre! Já me amaram com aquele amor que todo mundo quer, aquele que não existe em palavras, livros, búzios, músicas e nem em poesias que ainda hão de vir. E eu imaginava o lugar, o violino, a nossa canção, o vestido impecavelmente branco, o beijo no final e não imaginava outra coisa que não fosse meu buquê de girassóis. Eu olhava aquele singelo olhar, apaixonado e denso olhar, e dizia silenciosamente: não é você. Não há coisa mais dilacerante que sonhar sozinho. E amar sozinho.

Eu não tenho culpa. Só você me amou exatamente como eu nem sabia que queria. E você concordava em passar a vida inteira juntos, em um lugar pequeno, e com os nomes que escolhi para os nossos filhos. E só me impunha a cor dos meus olhos castanhos em nossa prole. Mesmo eu querendo os seus. E se casava comigo todos os dias. Casava seus pés nos meus, seus dedos nos meus cabelos, sua boca em meus ouvidos, seu toque em meu arrepio, sua risada na minha. Casava em brincadeiras, confidências, cumplicidades, gargalhadas e até lágrimas. Casava muito em lágrimas. Porque amar é tão profundo que precisa escapar de dentro assim, doído. E dói muito mesmo. Não há prazer sem dor.

Só você me deu girassóis e novos cheiros e sons. E me ensinou a conjugar futuro no presente. Só você me lia e me achava no escuro, sem a ajuda das mãos. E você sempre me disse que era eu a única que completava o seu número e cabia em qualquer lugar do seu abraço. Os signos não importavam, você disse, nem acreditava neles. Acreditava em nós. E agora que minha janela só guarda o vaso e a terra quase rala, que eu pensava em cultivar jasmins e lírios, você traz os girassóis pra eu cheirar. É muito difícil não ter com quem plantar.


11/01/2008 às 14h52
Despertar

     Passei o ano dormindo, acho. E num piscar de olhos, ele mudou. Havia uma comoção ao meu lado. As pessoas planejavam novas metas, as quais elas provavelmente não farão o menor esforço para atingir. Novas promessas surgiam ali, promessas que jamais serão cumpridas. Todos faziam uma retrospectiva do seu ano e pediam que ele fosse melhor. Nunca vi tanta gente reclamando que seu ano foi ruim e o mais irônico é que só no final do ano que fizeram esta análise e aí sim, começar a pensar em mudar. Começar a pensar em mudar... É muito verbo antes da ação.

     Pularam sete ondas, catorze, vinte e uma. Comeram lentilha, usaram arruda, tomaram até banho-de-cheiro. Passaram todos de branco, com uma peça amarela para atrair dinheiro e outros com alguma coisa vermelha para chamar paixão. Fazem isso todos os anos e todos os anos, no último dia, reclamam da má sorte do ano. Então, porque não mudam o ritual?

     No ano passado, não havia uma peça sequer em mim que fosse nova. Era tudo já batido. A meia-noite nem tentei pular onda alguma, o horário de verão não me deixa ter certeza se estou fazendo na hora certa... Não pedi nada. Esqueci. Estava embriagada e só agradeci por sabe Deus o que. Choveu muito. Se dependesse da minha virada sem uma promessa ou superstição, eu deveria estar pior que eles. Mas lá estava eu fechando mais um ciclo. E eu estava diferente. Eu estava melhor que no ano passado. Eu estava mais completa.

     Não fiz nenhuma promessa e consegui atingir algumas metas. Não tentei mudar nada e praticamente mudei tudo na minha vida. Não pedi amor e tive muito. Não pedi dinheiro e não morri de fome. Não pedi paz, mas conheci a tranqüilidade interior. Renovei valores, reforcei idéias. Encontrei-me, cresci. Alguma coisa nesse ano que passei sem contar meses, dias, horas, sem perspectiva, me fizeram crescer mais que normalmente. Talvez ninguém tenha reparado. Nem eu. Dormi e quando acordei eu era essa daqui. Muito melhor, mais sensata, mais adulta, mais autocrítica, mais cautelosa, mais interessante até.

     Esse ano eu tinha uma blusa nova e não muita paciência pra pensar em algo pra pedir, pra comer isso ou aquilo. Enquanto todos reclamavam do mau ano, eu agradecia o meu. E tanto faz. Após o estourar dos fogos a vida continua se repetindo. O dia seguinte não muda nada, só nos atrapalha na hora de escrever a data e ter que mudar o ano. Ainda ficamos alguns dias nos referindo ao ano passado como dois anos antes. Mas e aí? Teimamos em continuar repetindo. Primeiro porre do ano, primeira foto do ano, primeiro passeio do ano. E quando começar a primeira promessa do ano? Talvez minha promessa tenha sido não prometer mais nada.

     Pisquei os olhos e passou. E me senti tão feliz ao ver que passou melhor do que eu poderia esperar. E esse ano, tanto faz o que está reservado pra mim. Não depende só Dele. Depende mais de mim. E eu aprendi a ser mais que uma simples promessa. Talvez tenha passado o ano dormindo, mas foi aí que acordei.


03/01/2008 às 15h46
Segundos

     Não é o beijo que dá frio na barriga. São aqueles míseros segundos que o antecedem. Os milésimos antes dos lábios se encostarem, antes das bocas se tornarem uma e dos minutos se tornarem eternos. Talvez você não lembre do gosto depois, mas lembra do arrepio que sentiu um pouco antes de encostar a sua boca na outra.

     Não é a chegada em primeiro lugar na faixa que dá tremedeira durante a corrida. São os segundos antes de você cruzá-la, quando seus olhos estão fixos sobre ela e a tensão de que seu concorrente o ultrapasse no último segundo. São esses segundos relâmpagos que parecem horas que valem. Não é a chegada. É o caminho. Não é o gol. É o minuto antes de a bola atingir a rede, o ínterim entre o chute, o olhar do goleiro, a gota de suor que cai da testa do jogador, a unha roída de um torcedor, a atenção da torcida que está toda ali, naqueles segundos, naquele curto espaço de tempo.

     O que dá medo não é o pulo de pára-quedas. Quando se está no ar, se está a salvo, a missão está cumprida, você conseguiu. Ultrapassar os segundos antes do pulo é que é o grande desafio. O interminável segundo antes de se jogar, na porta do avião, transformando-se em um dia inteiro. É esse segundo que é decisivo.

     Um segundo muda tudo. Cruzar o olhar com outro e demorar três segundos para desviá-lo muda tudo. Você gosta do outro. Frio na barriga, sensação de ter sido desmascarado. Esperar o telefonema que parece nunca vir e no segundo de decidir desligar o celular, ele tocar. Ou ele aparecer na sua janela, fazendo uma surpresa.

     O segundo da hesitação, o segundo da certeza. O segundo que muda o sim para o não. E o não para o talvez. O abraço de quase dois segundos que parece durar séculos. O toque de um segundo em sua mão que gelou o corpo por meia-hora e o deixou sem sono por três dias.

     Segundos de medo, de vulnerabilidade, de insegurança, de desproteção, o segundo acovardado que antecede o “eu te amo”.

     Um segundo de silêncio para entender tudo. Um segundo de impulsividade para estragar tudo. Segundos que podem se tornar para sempre ou nunca mais.

     Um segundo pode ser amigo ou não. Um segundo pode lhe ajudar ou não. Um segundo pode lhe salvar ou não. Mas um segundo não pode ser previsto. Não se antevê, não se sabe, não se imagina. A vida muda a cada segundo. Como nesse. Você já mudou. 


Luly Mendonça tem 27 anos, e há três escreve para o PortalORM. Perfeccionista como todo virginiano, mentirosa como todo publicitário.
É redatora publicitária, repórter e coordenadora da Revista Estilo Patio Belém, dona de brechó e aspirante à escritora. Tudo o que você falar poderá ser usado contra você em uma de suas crônicas. Cuidado!
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