É quase dilacerante sentir os poros do corpo irem aos poucos se dilatando, eriçando todos os pelos do lado esquerdo: braço, perna, até uma parte do rosto chegou a doer. A temperatura interna do corpo desaba, e os músculos eretores começam a tremer, na tentativa de criar calor. O músculo eretor faz o pelo arrepiar, o duto para as glândulas de suor e os vasos sanguineos ficam pequeninos, para conservar o calor e arrepia a pele. Arrepio. Arrepio que quase chega a paralisar a metade esquerda do corpo. Uma resposta automática do corpo, segundo meu próprio professor ensinou, a uma mudança de ambiente, a proximidade do fogo, ao frio. Mas não. Era apenas o braço dele encostando-se ao meu.
Durante todo o tempo dentro daquele cinema me mantive ereta, estática, sisuda, ri pouco, mal esticava a mão para pegar a pipoca. O braço da poltrona que nos separava tirava minha atenção do filme. Era uma missão árdua dividir o mesmo espaço sem encostar meu braço no dele. Aquele ombro quase colado ao meu, como se implorasse para que minha cabeça repousasse sobre ele. Aquele ombro onde já havia deitado meu choro tantas vezes, que já havia recebido meu afago, meus cabelos embaraçados. O ombro, o braço, as mãos que incontáveis vezes tacaram as minhas, o peito que sempre me recebeu aconchegada. Aquele corpo ao meu lado, dividindo a pipoca, o braço da poltrona do cinema, que protagonizava aquela cena tantas vezes dantes repetida, quase como um deja vu e que agora me obrigava a manter-me protegida envolta em um escudo imaginário, concentrada em não me desconcentrar, era dele: meu melhor amigo.
Eu sei. É ridículo dizer que de repente estava sendo tão difícil dividir um espaço tão pequeno com ele. E que o inocente toque da sua mão em mim, causava um maremoto em meu corpo. Mais ridículo era, dessa vez, não poder dividir isso com ele. Não. Eu nunca o olhei com lascívia, com desejo, nunca nem sequer havia passado a possibilidade remota de ter algo além da amizade de sempre. Por ele só havia carinho, respeito, amor quase de irmão. Eu me arrepiava sim, mas em pensar que isso poderia ser diferente um dia. Agora, como explicar o que aconteceu a ele? Como disfarçar meu incômodo? Como explicar a mim?
Convidá-lo para qualquer programa não era mais simples. Fazer um telefonema não era mais simples. Vê-lo dissertar duas horas sobre a mulher que lhe tira o sono não era mais simples. E como o arrepio é a defesa do corpo ao medo, o sumiço é a defesa do covarde.
Foram dias, que se transformaram em semanas, que completaram um mês. Não atendia à maioria de suas ligações e quando atendia, dava uma desculpa qualquer para não vê-lo. “Muito trabalho”, “muito cansada”, muitas frases prontas inventadas até ele notar algo errado e me fazer aparecer para desmentir que eu o estava evitando.
Quando nos vimos, sentados frente a gente ali, naquela mesa daquele bar barulhento daquela sexta-feira comum foi como deveria ser. Nos abraçamos sem direito a arrepios, conversamos sem direito a timidez, rimos e nos encarnamos sem direito a constrangimentos. Meu amigo estava de volta, foi tolice achar que aquilo era de verdade. Talvez carência, quem sabe. Mas as coisas estavam de volta aos seus lugares. Mas ao nos despedirmos, talvez o seu abraço tenha demorado mais e seus braços me apertado um pouco mais. Talvez ele tenha me feito algum elogio diferente no meio do caminho e talvez a música que tocava no carro não estivesse ali em vão. E de repente sua mão emaranhou no meu cabelo e seus olhos pararam nos meus. Como se ele fosse me beijar. Foram alguns segundos de eternidade dentro daquele carro, que me fizeram distrair do som que ele balbuciava. Fitei sua boca para me concentrar, estávamos tão perto... Senti sua mão tremer um pouco, vi as gotas de suor em sua testa. Não consegui me mexer. Suas mãos desceram pelos meus cabelos e ele me beijou a testa, depositando frustração em mim. Ele falou: ‘Já vou. Vou encontrar a Luciana. Ela me ligou. Amanhã eu ligo para contar tudo'.
O arrepio está relacionado a mecanismos de defesa usados pelo nosso organismo para evitar que a temperatura corporal saia da estreita faixa de temperatura do nosso corpo. A tremedeira que invade todos os músculos é a primeira proteção, para gerar calor. È verdade que a sensação de arrepio não é provocada apenas pelo frio. O medo, a raiva e outras situações de stress provocam arrepios.
Eu nunca soube o que houve com meu amigo depois daquela noite. Eu nunca mais o atendi. Ele também nunca soube o porquê do meu sumiço. Um dia desses, um colega em comum disse que ele estava morando fora, trabalhando com importação e que havia perguntado por mim. Me espantei, ele sempre gostou de desenhar, de escrever. Importação? Que estranho... E nosso colega respondeu: “Ele sempre gostou foi de você, mas sempre disfarçou mal, todo mundo sabia”.
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