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17/12/2009 às 12h00
A Culpa

Dia desses, almocei Pato no Tucupi, comi uma fatia de bolo, devorei dois temakis à noite, me enchi de cerveja e no meio da madrugada comi salgadinho. Culpa. A cada bolinha salgada engolida, em plena duas horas da manhã, eu pensava em tudo o que já tinha comido e o salgadinho ia se tornando cada vez mais pesado, muito mais do que ele realmente era. Foram calorias e calorias de culpa. Culpa por quê?

Li uma reportagem que dizia que as mulheres mentem muito mais do os homens (sim!). Tudo por causa de um fardo que aprendemos a carregar desde cedo: a culpa. Se nós trabalhamos demais, nos culpamos por não dar atenção à família, aos filhos, ao namorado. Se conseguimos fazer ambos, nos culpamos por não termos tido tempo de malhar. Se deixamos de comer, bate a culpa, se comemos muito, bate a culpa. Mulher não pode ter tempo livre que arruma algo pra fazer, só porque se sente culpada de estar ali deitada inerte em frente à TV quando poderia estar ‘aproveitando’ pra fazer as unhas ou arrumar aquele armário.

Daí, nascem as mentiras. Se duas amigas contam como perderam dois quilos malhando, a gente rapidamente inventa uma desculpa por não estar na academia. “Eu ia me matricular, menina, mas esses dias fiquei até tarde no trabalho e minha mãe chegou de viagem, papofurado, papofurado e papofurado...”. Tradução da dor na consciência: só eu não estou me cuidando, que vergonha!

Se um amigo chama a gente pra um chope ou pra acompanhá-lo ao teatro e a preguiça bate, preferimos inventar que o tio morreu ou que estamos muito cansados, com dor de cabeça e amanhã temos que acordar cedo, e toda história toma um rumo gigantesco só pela culpa de dizer um não. E sim, isso é coisa de mulher. Um homem simplesmente diria ‘ah, não tô a fim, amigão.’ Se a água derrama no chão, um homem perfeitamente joga um pano em cima e volta a ver o jogo na TV, porque ele pode pensar sobre isso depois do FlaxFlu. A gente não se concentra no capítulo da novela enquanto não tivermos limpado a sujeira, mesmo que ninguém esteja olhando. A gente não se sente livre pra fazer nada depois ou pra simplesmente não fazer. Mas, quem está nos cobrando?

Tenho amigas que arrumam as desculpas mais estapafúrdias para se explicar, como se elas realmente precisassem. Eu sempre inventava que meu celular estava no silencioso quando não queria atender e interromper o filme que estava vendo ou o livro que me prendia mais do que tudo. Certo dia, resolvi me libertar e contar a verdade pros meus amigos. Ela foi demais pra eles. ‘Um absurdo não me atenderes porque queres ver TV ou porque estás com preguiça de falar!’. Vamos simplificar: tem momentos em que eu não quero bater papo ao celular, preciso (e, pasmem, todo o ser humano da face da terra) me desligar do mundo, pronto. Isso foi um choque! Até hoje meus amigos não engolem a verdade e ficam indignados. Mas, porque eu deveria mentir, inventar desculpas esfarrapadas para algo simples? Por que eu preciso estar sempre on line e a postos?

Falto tanto a academia porque tenho preguiça – e invento mil desculpas a minha consciência - , começo e não termino as coisas pelo mesmo motivo. E vou culpar quem? Mentir pro mundo vai mesmo me fazer perder os tão desejados quilos a mais? Com o tempo aprendi que eu devo e mereço ficar na minha cama com as sobrancelhas por fazer se essa for a minha vontade, sem me culpar, porque ter um tempo ocioso hoje é uma raridade para poucos e posso deixar as obrigações pra outro dia, sim. Tempo é ouro e faço com o meu ouro o que quiser. E não vou me sentir culpada de ter bebido cerveja demais no meio da dieta, porque, como diria o finado Jânio Quadros, ‘fi-lo porque qui-lo’. Prazeres vem minados de culpa, acabando sempre com toda a graça deles...

As revistas, a família, a sociedade exigem tanta coisa de nós que nos tornamos escravas da perfeição. Temos, temos, temos. Que ser boas profissionais, excelentes mães, donas de casa de dar inveja, bonitas, bem cuidadas e bem humoradas, como se não tivéssemos direito a defeitos, à preguiça, a jogar tudo pro alto quando ficamos de saco cheio. Como se todo mundo que se enche de atividades ao mesmo tempo conseguisse fazer todas com perfeição. Porque o que nos engorda na verdade é a culpa, o que nos tira o sono à noite é a culpa, o que nos faz sentir menos bonita ou péssima namorada é a culpa. A culpa é da culpa. E a culpa é nossa. E quem irá nos libertar senão nós mesmas?

 


Luly Mendonça tem 27 anos, e há três escreve para o PortalORM. Perfeccionista como todo virginiano, mentirosa como todo publicitário.
É redatora publicitária, repórter e coordenadora da Revista Estilo Patio Belém, dona de brechó e aspirante à escritora. Tudo o que você falar poderá ser usado contra você em uma de suas crônicas. Cuidado!
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