Festa à fantasia pra mim é como a noite do Oscar para Tom Hanks que todo ano deveria ser indicado pelo menos à categoria ‘arroz de Oscar’. Existe toda uma preparação. Sou dessas pessoas chatas e perfeccionistas, e mais: quero causar. Não existe heresia maior do que alguém dizer ‘ah, na hora eu vejo uma roupa’. Como assim, na hora? É essa a chance de eu viver meus personagens preferidos e botar em prática a cosplayer, a atriz frustrada que mora em mim. E começa a maratona.
Pesquisar no Google os mínimos detalhes da minha personagem, salvar todas as fotos, avisar a todos a minha fantasia pra não correr o risco de haver outra. A ida ao comércio sacrificante. Sol escaldante e normalmente a procura indigesta por coisas impossíveis: ‘Moça, aqui vende focinheira?’, mostrando a foto do Hannibal Lecter e atraindo automaticamente um olhar assustado da vendedora. Semana passada eu estava atrás de um protetor escrotal, ou mais precisamente, um porta-saco. Isso mesmo, minha fantasia tinha uma saqueira, uma bengala, um chapéu-coco preto, um suspensório branco e todas essas coisas nada fáceis de encontrar. Mas como uma boa neurótica, consegui tudo, absolutamente tudo que uma fantasia perfeita de Alex deLarge, do filme Laranja Mecânica precisava.
Lá vou eu ao salão colocar os cílios postiços em um olho só, em cima e em baixo. Chego em casa e abuso na maquiagem dos olhos, coloco a indefectível calça e blusa de botão brancas e o coturno preto. Com o chapéu e a bengala, pronto, eu estava perfeita. Estava orgulhosa! Mais uma fantasia que sempre quis usar. Fui até a geladeira, enchi um copo de leite e só não coloquei a nona sinfonia de Bethoveen no carro, porque fiquei com medo de querer parar no meio do caminho pra bater em algum mendigo - desculpe, se você não assistiu ao filme, eu não vou explicar aqui!
Mas festa a fantasia é assim: durante o mês inteiro seus amigos discutem em mesa de bar sobre quem vão fantasiados, dão sugestões um ao outro, sacaneiam e viajam na brincadeira. Nessa hora, até alugar num site francês a roupa do Waldemort vale. Você se empolga, pô, vai todo mundo caprichar, não posso fazer feio. Quando chega na festa todo dentro do conformes, entra no salão, olha ao redor e se pergunta: CADÊ AS PORCARIAS DAS FANTASIAS??! Sim, você é um dos únicos três que foram à caráter. 60% da festa está de preto, 20% está de cospobre: com uma máscara qualquer ou um cabelo colorido sem sentido. E o que era pra ser uma entrada triunfal mata você de vergonha e faz qualquer Alex deLarge querer sair correndo pra enfiar grampos nos olhos, botar uma camisa de força e assistir àqueles filmes de ultraviolence do filme.
Não tem mais jeito, todos já olharam pra você e querem tirar uma foto e comentar a fantasia: - Cara, você ta demais! - Obrigada... – você responde sem graça. - Mas... Você fantasiado de que?
Pronto. É agora que seu mundo cai. Tanto trabalho com os detalhes, sua roupa está impecável, seu cartão quase não passa mais e perguntam ‘que fantasia é essa?’. Mas calma, calma, ele não viu o filme, tudo bem, mas o resto dos seus amigos cinéfilos viram e reconheceram você na hora. Não tem problema se alguns não te reconhecerem. Mas aí chega uma bêbada empolgada: - Adoooooreeeeei eze chapé..ic...péu!! – e puxa a sua bengala pra dançar. Você sorri sem graça, mas entra na dela. E então ela solta: - Mas porque você veio de branco. Charlie Chaplin não é vestido de preto? - Eu estou de Alex! Alex! Laranja Mecânica? - Laranja? Izo não é...ic...branco?
Já deu. Você precisa se juntar aos seus. Vai lá no canto com a pobre da noiva cadáver que está com a cara só pancake, cheia de meia azul nos braços e nas pernas atraindo olhares curiosos. Agora são só vocês. Talvez o cara fantasiado de Dr. House – que todos achavam que estava manco mesmo – possa também se juntar à mesa pra ficar menos feio. E pelo menos o DJ está vestido de Papai Noel, ainda que o tema da festa fosse ‘vilões’. Você jura que da próxima vez não vai fazer fantasia e quando chega o carnaval, ainda traumatizada com a última festa, vai aquele baile na casa do seu amigo apenas com uma peruca Black power, triste, porque as pessoas não entendem o espírito da festa à fantasia e o obrigam a ser estraga-prazeres também. E ao entrar no salão se depara com Colombinas, pirata do caribe, mulher-gato, princesas, heróis e até aquele personagem da Fantástica Fábrica de Chocolate, todos perfeitos! ‘Por que você não veio fantasiada?’, alguém o pergunta e só para o orgulho sair ileso, você responde:
- Vocês são todos uns palhaços.
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